No Engenho Velho da Federação, em Salvador — o mesmo bairro da Casa Branca —, na Ladeira do Bogum, fica o Zoogodô Bogum Malê Hundó (também escrito Rundó), o Terreiro do Bogum. É uma das casas mais antigas da Bahia e a principal guardiã do candomblé jeje mahi em Salvador (leia A nação jeje e sua origem).
Uma casa jeje
Enquanto a maioria dos grandes terreiros de Salvador é de nação ketu, o Bogum preserva a tradição dos povos fon e mahi do antigo Daomé, o atual Benim. Ali se cultuam os voduns (leia Voduns: as divindades do jeje), como Loko, homenageado em janeiro, e Azanadô, o vodum da árvore. As cerimônias usam a língua dos fon, e a sacerdotisa que dirige a casa leva o título de doné (leia Dicionário jeje).
Quando nasceu
A data da fundação não é certa. O historiador Luis Nicolau Parés, no livro A formação do candomblé (2006), situa a origem entre o fim do século XVIII e o começo do XIX; o IPAC, órgão do patrimônio da Bahia, fala em cerca de 1719. Parés estudou o Bogum e sua casa irmã, o Seja Hundé (Roça do Ventura), em Cachoeira, no Recôncavo, e mostrou como o jeje marcou o candomblé baiano como um todo (leia Do calundu ao candomblé).
O nome «malê»
O nome do terreiro guarda a palavra malê, como eram chamados os africanos muçulmanos da Bahia, que em janeiro de 1835 fizeram a grande revolta de Salvador (leia Tráfico atlântico). Parés registra duas tradições orais: uma fala de escravizados mahi aquilombados; outra, de Joaquim Jeje, que teria participado da revolta. Conta-se que ele escondeu ali um baú — um bogum — com doações para os revoltosos. São memórias preciosas da comunidade, que os historiadores registram como tradição.
As mães do Bogum
O Bogum é dirigido por mulheres. Entre as sacerdotisas lembradas pela comunidade estão Mãe Emiliana, Doné Runhó e Mãe Nicinha, que hoje dão nome a uma praça perto do terreiro. Desde agosto de 2003, a casa é conduzida pela sacerdotisa Zaildes Iracema de Mello, a Doné Índia.

Patrimônio da Bahia
Em 31 de julho de 2026, o Governo da Bahia decretou o tombamento do Terreiro do Bogum, que entrou no livro de bens imóveis protegidos do IPAC, o instituto do patrimônio do estado. O processo foi aberto em 2019 e aprovado pelo IPAC e pelo Conselho Estadual de Cultura. Com o tombamento, o terreiro passa a ter proteção legal contra demolições e obras que o descaracterizem. O Engenho Velho da Federação, onde fica o terreiro, também é reconhecido pelo poder público como quilombo urbano. Em 2024, a casa foi homenageada no carnaval do Rio pela escola de samba Viradouro.
Respeito
O Bogum é um templo vivo. As festas públicas vão de 1º de janeiro até meados de abril, e há ainda uma missa anual em louvor a São Bartolomeu. Os visitantes são recebidos com respeito e devem retribuir: roupa clara, silêncio nas horas certas e nada de fotografar sem autorização. Os fundamentos são da comunidade e são ensinados por ela.
Para ler mais
A história contada por dentro: o ogã Everaldo Conceição Duarte, o Agbagigan, reuniu suas memórias da casa no livro Terreiro do Bogum: memórias de uma comunidade Jeje-Mahi na Bahia (Solisluna, 2018). Veja o livro na Amazon.
Leia também
- Casa das Minas
- Voduns: as divindades do jeje
- Casa Branca do Engenho Velho
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)
- Bahia Notícias — «Tradicional Terreiro do Bogum, em Salvador, é tombado pelo IPAC» (2026)
- A Tarde — «Bogum tem culto a vodum da árvore»
- IPAC — dossiês de tombamento
- Portal Soteropreta — «Terreiro do Bogum agora é Patrimônio Cultural da Bahia» (2026)
- Portal do Case — «Conheça a história do Terreiro do Bogum, Patrimônio Cultural da Bahia» (2026)
- Everaldo Conceição Duarte — Terreiro do Bogum: memórias de uma comunidade Jeje-Mahi na Bahia (Solisluna, 2018)
Foto da capa: Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó/Divulgação, publicada pelo Portal Soteropreta.






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