No bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, fica o terreiro que muitos chamam de mãe dos candomblés de nação ketu: o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, conhecido como Casa Branca do Engenho Velho. Foi o primeiro terreiro tombado como patrimônio nacional no Brasil.
Da Barroquinha ao Engenho Velho
Segundo a tradição oral, o terreiro nasceu no começo do século XIX perto da Igreja da Barroquinha, no centro de Salvador, fundado por africanas ligadas às irmandades católicas negras da cidade (leia Do calundu ao candomblé). A memória da casa guarda nomes como Iyá Nassô — título de uma sacerdotisa do culto de Xangô no antigo reino de Oyó —, Iyá Adetá e Iyá Akalá. O pesquisador Renato da Silveira reconstituiu essa história.
Com o tempo, o terreiro deixou o centro e foi para o Engenho Velho, então um lugar afastado, com mata e água — o que o culto dos orixás pede (leia O que é axé?). Depois de Iyá Nassô, a casa foi dirigida por Marcelina da Silva, Obatossi, e por uma longa linhagem de iyalorixás.
A mãe de muitas casas
Da Casa Branca saíram, por disputas de sucessão e pela própria força da tradição, dois outros grandes terreiros de Salvador:
- o Gantois — Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê —, fundado em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazaré (leia Gantois e Mãe Menininha);
- o Ilê Axé Opô Afonjá, fundado em 1910 por Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, iniciada na Casa Branca.
Por isso se diz que essas três casas formam o tronco da tradição ketu na Bahia — e, a partir delas, de milhares de terreiros pelo Brasil (leia As principais nações de Candomblé).
O primeiro terreiro tombado
Nos anos 1980, o terreno da Casa Branca estava ameaçado. O povo de santo, com o apoio de antropólogos, artistas e intelectuais, pediu a proteção do Estado. Em 1984, o IPHAN — o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — aprovou o tombamento: pela primeira vez, um templo de religião afro-brasileira foi reconhecido como patrimônio cultural do país. O antropólogo Ordep Serra, que participou do processo, contou essa luta no livro Águas do Rei.
O tombamento abriu caminho para que outros terreiros fossem protegidos depois, como o Gantois, o Opô Afonjá, o Bogum, o Bate Folha e a Casa das Minas.
Visitar
A Casa Branca é um templo vivo, não um museu. Em dias de festa pública, quem visita deve ir de roupa clara, respeitar as orientações da casa e não fotografar sem autorização. Os fundamentos são da comunidade e são ensinados por ela a quem é de casa.
Leia também
- Gantois e Mãe Menininha
- Do calundu ao candomblé
- Xangô, o orixá da justiça e do trovão
- Oxum, a orixá das águas doces
Fontes
- Renato da Silveira — O candomblé da Barroquinha: processo de constituição do primeiro terreiro baiano de keto (Edições Maianga, 2006)
- Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)
- Ordep Serra — Águas do Rei (Vozes, 1995)
- IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: terreiros tombados
Foto da capa: Paul R. Burley — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.






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