Para os iorubás, os mortos ilustres não desaparecem: de tempos em tempos eles «voltam» à comunidade para ser lembrados e abençoar os vivos. Esse é o culto aos Egunguns, os ancestrais, chamados com respeito de Babá Egum. No Brasil, essa tradição sobreviveu principalmente num lugar: a Ilha de Itaparica, na Bahia.
Uma tradição africana
Na África iorubá, o Egungun é o culto aos ancestrais, que se tornam visíveis por meio de vestes rituais coloridas, cobertas de tecidos, e dançam entre a comunidade. Tradições orais ligam o culto ao antigo reino de Oyó e, segundo a tradição, quem o criou foi Oyá, a orixá ligada aos mortos (leia Iansã, a orixá dos ventos).
Um culto à parte
No Brasil, o culto aos Egunguns é uma sociedade separada do candomblé de orixá, embora muitos membros participem dos dois. Cultuam-se sobretudo ancestrais masculinos, homens que foram sacerdotes em vida. Os sacerdotes, chamados ojés, são sempre homens: só eles guardam os segredos de como o Babá Egum se faz presente. Às mulheres cabem outras funções importantes da casa, como o cuidado dos orixás e a cozinha ritual.
O que é público é isto: a veste ritual é o que torna o ancestral visível, e só os ojés podem invocá-lo. O resto é fundamento da casa, ensinado apenas aos iniciados.
Omo Ilê Agboulá, em Ponta de Areia
Em Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, fica o Omo Ilê Agboulá, considerado o terreiro de Egum mais antigo em atividade no Brasil. A casa foi fundada nos anos 1930–40 pela família Daniel de Paula, herdeira de uma linhagem que cultua os ancestrais há cerca de dois séculos, e homenageia Babá Agboulá, seu patrono.
O terreiro foi tombado pelo IPHAN em 2015, foi reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia em 2024 e recebeu também o tombamento estadual em 2026. Em Ponta de Areia há ainda outra casa de Egum, o Ilê Olokotum.
Mestre Didi e o Alapini
O título mais alto do culto aos Egunguns é o de Alapini, o sacerdote supremo dos ancestrais. Quem o recebeu foi Mestre Didi, Deoscóredes Maximiliano dos Santos, artista e sacerdote baiano que faleceu em 2013. Em 1980, ele fundou em Salvador o Ilê Asipá, casa de culto aos Egunguns, levando a tradição de Itaparica para a capital. O Ilê Asipá foi tombado pelo Estado da Bahia em 2017.
Lembrar os ancestrais é um dos pilares de todas as religiões de matriz africana. No Dia de Finados e em outras datas, muitas casas fazem suas homenagens — cada uma do seu jeito e com o seu fundamento.
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Fontes
- Governo da Bahia — «Terreiro Omo Ilê Agboulá é reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia» (2024)
- Joanice Conceição — Irmandade da Boa Morte e culto de Babá Egum (resenha na revista Caos)
- Rachel E. Harding — «Afro-Brazilian Religions», Encyclopedia of Religion (2005)
- Renato Rodrigues — Ancestrais que vieram da África: o culto a Egúngún no Candomblé Omo Ilê Agboulá (dissertação, PUC-SP, 2021)






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