As religiões de matriz africana no Brasil nasceram de uma das maiores tragédias da história: o tráfico atlântico de pessoas escravizadas. Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 12 milhões e meio de africanos foram embarcados à força para as Américas. Segundo o banco de dados Slave Voyages, perto de 5 milhões desembarcaram no Brasil — mais do que em qualquer outro país. Com eles vieram línguas, saberes, músicas e a fé nos orixás, nos voduns e nos inquices, que resistiram a tudo e chegaram até nós.
Os quatro ciclos do tráfico
O fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, que viveu entre a Bahia e o golfo do Benim, dividiu o tráfico para o Brasil em quatro ciclos, conforme a região da África de onde vinha a maioria das pessoas:
- Ciclo da Guiné (século XVI): da costa oeste, entre o Senegal e a Serra Leoa;
- Ciclo de Angola e do Congo (século XVII): povos bantos da África Central, que foram a maioria por muito tempo e se espalharam por quase todo o país;
- Ciclo da Costa da Mina (boa parte do século XVIII): da região que hoje vai de Gana ao Benim;
- Ciclo do golfo do Benim (de cerca de 1770 a 1850): a fase que trouxe à Bahia os jejes e, sobretudo, os nagôs.
Bantos, jejes e nagôs
Os bantos — de Angola, do Congo e, mais tarde, de Moçambique — deixaram a marca mais antiga e mais larga na cultura brasileira, das palavras do dia a dia ao candomblé de nação Angola e à Umbanda (leia Nação Angola: história dos povos banto e Dicionário banto).
Os jejes eram os povos do antigo reino do Daomé, hoje Benim, que trouxeram o culto dos voduns (leia Voduns: as divindades do candomblé jeje). Os nagôs eram os iorubás. No começo do século XIX, as guerras que derrubaram o grande Império de Oyó lançaram milhares deles nos navios negreiros; chegaram à Bahia em tão grande número que a língua e o culto dos orixás iorubás passaram a dar o tom de muitos terreiros (leia Dicionário iorubá do candomblé).
Resistência
Escravizados não aceitaram passivamente o cativeiro: fugiram, formaram quilombos, compraram a própria liberdade, criaram irmandades e se revoltaram. Em janeiro de 1835, em Salvador, africanos muçulmanos — a maioria nagôs — fizeram a Revolta dos Malês, estudada pelo historiador João José Reis. E, nas senzalas e nos bairros das cidades, a fé foi reorganizada em comunidade: é a história contada em Do calundu ao candomblé.
O fim do tráfico e o refluxo
Uma lei de 1831 proibiu o tráfico, mas não foi cumprida. Só a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, o encerrou de fato, e a escravidão acabou apenas em 1888, com a Lei Áurea. Verger mostrou também o refluxo: libertos que voltaram à África — os agudás, que até hoje mantêm sobrenomes portugueses no Benim e na Nigéria — e comerciantes que levavam e traziam, entre os dois lados do oceano, panos da costa, noz-de-cola e outros artigos usados nos terreiros. O Atlântico, como escreveu o historiador Alberto da Costa e Silva, virou um rio entre a África e o Brasil.
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Fontes
- Pierre Verger — Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos (Corrupio, 1987)
- Slave Voyages — banco de dados do tráfico transatlântico de escravizados
- João José Reis — Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835 (Companhia das Letras, 2003)
- Alberto da Costa e Silva — Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (Nova Fronteira, 2003)






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