Acervo das religiões afro-brasileiras desde 2012

Portal Afroxé

O maior portal das religiões afro do Brasil

,

Casa das Minas: o terreiro dos voduns em São Luís do Maranhão

Fachada verde e rosa da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão

Na Rua de São Pantaleão, no centro histórico de São Luís do Maranhão, fica uma casa de fachada simples que guarda uma das tradições religiosas africanas mais antigas do Brasil: a Casa das Minas, cujo nome ritual é Querebentã de Zomadonu. É a casa-mãe do tambor de mina jeje, a religião dos voduns no Maranhão (leia Voduns: as divindades do jeje).

Origem

A casa foi fundada em meados do século XIX por africanas vindas do antigo reino do Daomé, hoje Benim — os povos que o Brasil chamou de jeje (leia A nação jeje e sua origem e Tráfico atlântico). Pierre Verger levantou em 1952 a hipótese de que a fundadora teria sido Nã Agontimé, rainha-mãe do rei Guezo, vendida como escrava por um rival. A hipótese nunca foi provada, mas ajudaria a explicar por que a casa cultua justamente os voduns da família real daomeana.

Os voduns e as famílias

Na Casa das Minas, os voduns se organizam em famílias. A família real, Davice, é a dona da casa, e seu chefe é Zomadonu. Há também a família de Dambirá, ligada à terra e às doenças; a de Quevioçô, do trovão; e a de Savaluno. Os voduns são recebidos pelas vodunsis, as filhas da casa — na Casa das Minas, só as mulheres entram em transe.

Uma particularidade marcou a casa: as tobossis, entidades femininas e infantis, que eram recebidas pelas vodunsis mais antigas, iniciadas num rito longo e raro. Com o tempo, não houve novas iniciações desse grau, e as tobossis deixaram de vir — uma perda que as próprias mães da casa lamentavam (leia Dicionário jeje).

As mães da casa

A Casa das Minas foi sempre dirigida por mulheres. A mais lembrada é Mãe Andresa Maria, que a conduziu na primeira metade do século XX e recebeu pesquisadores como Nunes Pereira, autor do primeiro livro sobre a casa, em 1947. Depois vieram outras mães, como Mãe Deni, que viveu até 2015. O etnógrafo Sergio Ferretti conviveu por décadas com a comunidade e escreveu a obra de referência sobre ela.

Tambor de mina e patrimônio

Da Casa das Minas e de sua vizinha, a Casa de Nagô, nasceram muitos terreiros de tambor de mina no Maranhão e no Pará, que depois receberam também encantados e caboclos. A Casa das Minas foi tombada pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil.

É um templo vivo, com calendário de festas próprio. Quem visita deve respeitar as orientações da casa; os fundamentos são da comunidade.

Leia também

Fontes

  • Sergio Ferretti — Querebentã de Zomadonu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão (EDUFMA, 1985)
  • Manuel Nunes Pereira — A Casa das Minas: contribuição ao estudo das sobrevivências do culto dos voduns do panteão daomeano no Estado do Maranhão (1947; reedição Vozes, 1979)
  • Pierre Verger — «Le culte des vodoun d’Abomey aurait-il été apporté à Saint-Louis de Maranhon par la mère du roi Ghézo?» (Les Afro-Américains, IFAN, 1952)
  • Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)

Foto da capa: clecio muller frança leal — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Respeito a todas as casas e tradições.

Receba as novidades

Artigos, notícias e eventos do axé no seu e-mail.

Leia também

Editorias

Da Biblioteca do Axé

Estrela MísticaEstrela MísticaMagia, espiritualidade e autoconhecimento: chamas gêmeas, numerologia, mantras, cristais e rituais.Conhecer a Estrela Mística

Do acervo

Continue lendo