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«Macumba»: de onde vem a palavra e por que virou xingamento

Reco-reco de madeira e baqueta sobre esteira de palha, ao lado de um jornal antigo e de um pequeno atabaque

Poucas palavras no Brasil carregam tanto peso quanto «macumba». Muita gente usa como xingamento ou como sinônimo de feitiço na esquina. Mas, nos registros mais antigos já encontrados, a palavra não nomeava nada disso. Nomeava um instrumento musical.

Um dicionário, cinco «macumbas»

Nei Lopes, no Novo dicionário banto do Brasil (2003), registra a palavra em cinco verbetes, transcritos num estudo de 2025 que aparece mais abaixo. Um deles é «espécie de reco-reco», um instrumento de percussão raspado. Outro é a «designação genérica e pejorativa dos cultos afro-brasileiros». Há ainda o sentido de filha de santo em terreiro banto, um antigo jogo de azar e um registro duvidoso como nome de erva.

Para Lopes, a palavra é de origem banta, mas de étimo «controverso». Ele não está sozinho na dúvida.

As origens em disputa

Num estudo de 2025, os linguistas Bruno Maroneze e Marcelo Ferreira Nunes reuniram onze hipóteses já propostas e somaram uma décima segunda. Algumas:

  • do quimbundo makumba, plural de uma palavra que quer dizer «cadeado, fechadura» (Antenor Nascentes);
  • de cumba, «feiticeiro», com o prefixo de plural ma- (a preferida de Nei Lopes);
  • do quicongo makumba, «prodígios, fatos miraculosos» (também citada por Lopes);
  • para o instrumento, do quimbundo mukumbu, «som» (Lopes);
  • do quicongo, com o sentido de «murmúrios» (Van Der Poel).

Vários desses significados ainda precisam ser conferidos por especialistas em línguas africanas. A conclusão dos autores é que não existe uma origem única. Palavras parecidas de várias línguas bantas teriam se misturado, e cada sentido de «macumba» pode ter vindo de uma fonte diferente. O historiador Luiz Antônio Simas, citado no estudo, vai na mesma linha: o reco-reco viria do quimbundo; a cerimônia, do quicongo.

Primeiro o instrumento, depois a polícia

A primeira «macumba» que Maroneze e Nunes acharam nos jornais está no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em dezembro de 1870. É a cobertura sensacionalista da prisão do líder religioso Juca Rosa. O jornal descreve uma cerimônia em que «se tocavam macumbas». No dia seguinte, explica: era «um instrumento que lhe chamam macumba».

A palavra entra na imprensa como instrumento, mas já na página policial. Dias antes, o jornal usara «macumbeiro» como sinônimo de «feiticeiro».

O sentido de culto aparece impresso em 1880, no Jornal do Commercio. E aqui vem a surpresa. A nota que chama a polícia contra «a peior gente», reunida «para dansar a tal macumba», não é assinada por autoridade nenhuma. É assinada por «Os candomblés». Para os autores, era uma rivalidade entre grupos afro-brasileiros, em que a macumba ficava no lugar de inferior.

Como virou xingamento

A lei também pesava. O Código Penal de 1890 punia com prisão quem praticasse «o espiritismo, a magia e seus sortilegios». A palavra «macumba» não aparece no texto. Mas, segundo o sociólogo Lísias Negrão, da USP, descendentes de escravizados que mantinham rituais africanos estavam entre os enquadrados. Com o Estado Novo, portarias policiais passaram a citar «macumbas» e «candomblés» pelo nome. Houve apreensões de objetos sagrados e prisões de sacerdotes e iniciados.

Para Negrão, a palavra deixou de nomear uma religião, a de origem banta do Sudeste, e passou a ser vista como «superstição de negro», «magia negra que se despreza e se teme a um só tempo». Não foi por acaso, diz ele, que o 1º Congresso de Umbanda, em 1941, no Rio, adotou oficialmente o nome «umbanda»: era um jeito de fugir dessa carga.

Até a ciência ajudou. Segundo Saulo Conde Fernandes e Mario Teixeira de Sá Junior, clássicos como Arthur Ramos e Roger Bastide viam os cultos bantos como «degenerados» diante do Candomblé nagô.

A volta da palavra

Hoje há quem faça o caminho inverso. Simas e Luiz Rufino, num livro de 2018, chamam a macumba de «a terra dos poetas dos feitiços». O artista Pedro Ivo Cipriano Inocêncio, num artigo de 2020, propõe desmontar o sentido pejorativo, que ele liga ao racismo estrutural, e assume o nome de «macumbeiro» na própria arte.

O desfecho mais curioso vem do estudo de 2025: segundo Maroneze e Nunes, todas as hipóteses apontam para uma criação inteiramente brasileira. Ainda não se provou que tenha existido, na África, um instrumento ou um culto com esse nome. A palavra usada para dizer «coisa de fora» nasceu, ao que tudo indica, aqui mesmo, do encontro de línguas africanas.

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

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