Kò sí ewé, kò sí òrìṣà: «sem folha, não há orixá». O ditado é repetido em todo terreiro e resume uma verdade do candomblé: nenhum rito acontece sem as folhas. Banho, limpeza, iniciação, oferenda, festa — as ewé, as folhas sagradas, estão em tudo. Elas guardam axé (leia O que é axé), e o dono delas é Ossaim (leia Ossaim, o orixá das folhas).
Por que as folhas são sagradas
Para a tradição iorubá, cada planta tem uma força própria, que pode ser despertada pela palavra certa — o ofó, a reza ou cantiga da folha. Pierre Verger dedicou anos a esse saber e o reuniu no livro Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá, mostrando como, na Nigéria, o conhecimento de cada folha vinha junto com o encantamento que a ativa. No Brasil, José Flávio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão estudaram as folhas usadas nas casas de candomblé jeje-nagô no livro Ewé Òrìṣà.
Esses estudos registram uma divisão muito usada nos terreiros: há folhas «quentes» (ou excitantes), que agitam e despertam, e folhas «frias» (ou calmantes), que acalmam e refrescam. Cada orixá tem as suas, e saber combiná-las é uma das ciências mais respeitadas do povo de axé.
Onde as folhas aparecem
- Banhos — o banho de folhas, ou de ervas, é o rito mais conhecido, inclusive fora dos terreiros;
- Abô e amaci — infusões de folhas maceradas em água, usadas na limpeza e nas obrigações;
- Sacudimento — limpeza feita com ramos de folhas passados pelo corpo;
- Chão do barracão — em dias de festa, folhas espalhadas no chão perfumam e consagram o espaço;
- Mariô — a folha desfiada do dendezeiro, que protege as portas das casas — e é de Ogum (leia Ogum, o orixá do ferro e dos caminhos);
- Olubajé — a comida de Omolu é servida em folhas de mamona (leia Olubajé, o banquete do Rei da Terra).
Quais folhas, como colher, em que hora e com que palavras é fundamento de cada casa, aprendido com o sacerdote ou a sacerdotisa e, nas casas tradicionais, com o babalossaim, o responsável pelas folhas. O banho de ervas é um rito religioso: não substitui o cuidado médico.
A Série Folhas Sagradas do canal
O canal do Portal Afroxé tem uma série inteira com a cantiga de cada folha — o sasanyìn. A mais vista é a de Ewé Rinrin (Oriri), com mais de 15 mil visualizações:
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Fontes
- Pierre Fatumbi Verger — Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá (Companhia das Letras, 1995)
- José Flávio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão — Ewé Òrìṣà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé jêje-nagô (Bertrand Brasil, 1999)
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)






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