Quem convive com gente do candomblé um dia ouve: «isso é quizila do meu santo». Pode ser uma fruta, um prato, uma cor de roupa. Para quem está de fora, parece mania. Para quem é iniciado, é coisa séria. Mas o que é quizila, afinal? Aqui vai o quadro geral descrito por pesquisadores. Não é uma lista de regras: as quizilas mudam de nação para nação e de casa para casa.
Duas palavras para a mesma ideia
Quizila vem das línguas bantas. O escritor e pesquisador Nei Lopes, citado por Joíse Santos e Sandra Santos, define a palavra com dois sentidos: «ojeriza, aversão, implicância» e «proibição ritual, tabu alimentar ou de outra natureza». A origem estaria no quimbundo kijila: proibição, jejum, tabu alimentar. Daí vem também o verbo «quizilar», que no português do dia a dia quer dizer implicar.
Nas casas de tradição iorubá, muita gente usa outra palavra: euó, forma brasileira do iorubá èèwò. A antropóloga Francesca Bassi, que pesquisou terreiros em Salvador, conta que os dois termos são usados quase sem diferença. E que adotar «euó» virou, em algumas casas, um sinal de reafricanização.
O que pode ser quizila
Não é só comida. Segundo Bassi, que se apoia na pesquisadora Monique Augras, o iniciado ligado a seus orixás pode ter de evitar «certas substâncias, certos alimentos, certas cores, certos objetos ou situações». Bassi resume as quizilas como «coisas que não se podem usar, comer, fazer ou nomear».
De onde vêm as proibições
Uma explicação está nos mitos. Bassi escreve que as quizilas «surgem dos repúdios dos orixás». Cada orixá viveu histórias, e o que se ligou a algo ruim na vida dele vira objeto de ojeriza. Ela registra, por exemplo, que o abacaxi, fruto de casca rugosa, aparece como quizila de Omolu, porque lembra as marcas da varíola no corpo do orixá. E cita que os filhos de Oxumarê, o orixá cobra, não comem animais que rastejam.
Há uma segunda explicação, proposta por Augras: a de não comer «do mesmo material de que a cabeça é feita». Nessa leitura, segundo Bassi, filhos de Iemanjá e Oxum, o «povo das águas», evitam certos peixes ou crustáceos, e filhos de Nanã evitam caranguejo, porque a lama é o elemento dela. A etnóloga Gisèle Cossard-Binon observou algo parecido: depois da iniciação, a iniciada passa a reparar se certos pratos a incomodam, e em geral são pratos consagrados ao seu orixá.
O tema é antigo. Pierre Verger escreveu que, na África, até quem não é sacerdote deve respeitar «as proibições alimentares e outras, ligadas ao culto de seu orixá». No Brasil, segundo ele, cada um precisa cuidar pessoalmente das «minuciosas exigências» do seu orixá.
Regra do grupo ou marca pessoal?
Aqui os pesquisadores não pensam igual. A literatura mais antiga tratou a quizila como tabu, uma regra fixa e coletiva. Bassi acha que a palavra não encaixa bem. Para ela, muitas quizilas são pessoais: aparecem no jogo de búzios ou são percebidas depois, quando o corpo reage. Uma entrevistada sempre passava mal com caranguejo. Depois de entrar no candomblé, entendeu isso como ligação com Omolu.
Outras quizilas são da casa inteira. Bassi registra que no Ilê Axé Opô Afonjá a abóbora é tida como uma grande quizila. E ouviu de Kiko, de uma casa keto, que respeitar as quizilas do seu sacerdote «é uma herança».
Uma pesquisa num terreiro de candomblé angola, de Joíse Santos e Sandra Santos, separou três tipos: as quizilas coletivas, que marcam a identidade do grupo; os resguardos de comida durante ritos como a iniciação; e as quizilas pessoais, ligadas ao caminho espiritual de cada um.
Por que não existe uma tabela
Muita gente procura uma lista pronta com «a quizila de cada orixá». Os próprios estudiosos mostram por que isso não funciona. Augras, citada por Bassi, notou a grande variedade de quizilas relatadas e o caráter muito pessoal das explicações. Uma entrevistada de Bassi resumiu sobre a abóbora: «não é quizila de todos. Cada um é diferente».
E se a pessoa desrespeita? A mesma entrevistada disse que «as quizilas não matam, mas provocam problemas». Os relatos falam de enjoo, alergia e mal-estar. Quem orienta cada caso é o sacerdote ou a sacerdotisa da casa.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
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- O que são os orixás: origem, Olorum e quantos existem
Fontes
- Francesca Bassi — Revisitando os tabus: as cautelas rituais do povo de santo, Religião & Sociedade v.32 n.2, 2012
- Joíse Maria Rêgo Santos e Sandra Maria Chaves dos Santos — É quizila do santo: vivências e interdições alimentares em um candomblé angola, Revista de Alimentação, Cultura e Américas (RACA) v.3 n.1, 2022
- Francisco Thiago Silva — Candomblé iorubá: a relação do homem com seu orixá pessoal, Último Andar (PUC-SP) n.21, 2013
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