Poucas palavras da Umbanda despertam tanto medo e tanta curiosidade quanto «incorporação». Para quem nunca pisou num terreiro, a imagem costuma vir de filme de terror. Para quem frequenta, é o centro da vida religiosa. O que dizem os pesquisadores que estudaram o tema de perto?
O transe é o coração da Umbanda
Os antropólogos Bruno Filene e Gabriel Alvarez lembram que existem muitas umbandas, mas que o transe mediúnico é o elemento comum a todas. Na Umbanda, quem se manifesta são as entidades, como caboclos, pretos-velhos, erês e exus. Segundo o sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, essas entidades vêm para dançar e, sobretudo, para orientar e curar quem procura ajuda.
Orixá no Candomblé, entidade na Umbanda
No Candomblé, quem se manifesta no corpo do iniciado é o orixá, para ser louvado. Filene e Alvarez resumem a diferença numa frase: os orixás se expressam pela dança, e nas entidades da Umbanda prevalece a palavra. Por isso, na Umbanda, há consulta: a entidade conversa com quem chega.
Prandi descreve o transe do Candomblé como um modelo inconsciente, em que a divindade «cavalga» o iniciado. E o compara ao espiritismo de Kardec, no qual o médium, mesmo em transe, deve continuar atento.
Consciente ou inconsciente? Depende da casa
Aqui as fontes mostram versões diferentes. O antropólogo Lucas Brito estudou uma casa de Umbanda em Goiânia. Ali se ensina que o guia «não entra» no corpo do médium. A mediunidade seria a capacidade de perceber e transmitir vibrações. A casa fala em três fases: consciente, semiconsciente e inconsciente. Segundo esse ensinamento, o médium inconsciente é o mais raro. O consciente sabe o que está acontecendo e molda a mensagem com o próprio vocabulário.
Uma médium ouvida por Brito contou que, no começo, «só suava muito as mãos», e que tinha dúvida sobre o quanto era ela e o quanto era o guia. Ou seja: nem toda incorporação é desmaio ou perda total de consciência. Isso varia de casa para casa.
Desenvolver leva anos
Na Umbanda, aprender a lidar com a mediunidade tem nome: desenvolvimento mediúnico. Os pesquisadores Igor Oliveira e Raimundo Nascimento acompanharam um terreiro em Teresina. Eles descrevem um processo lento, que pode levar anos e não segue linha reta. O que conta não é a idade, mas a experiência. E quem ainda não incorpora também participa, ajudando nos trabalhos.
Nem todo mundo da casa entra em transe. Filene e Alvarez citam os cambones, que dão assistência às entidades, e dirigentes que podem incorporar ou não, conforme o trabalho.
O papel da casa e de quem a dirige
Os estudos insistem que o transe não acontece solto. Filene e Alvarez escrevem que ele ocorre dentro de rituais com começo e fim marcados por alguém com autoridade e conhecimento. Cabe a quem dirige a casa orientar os médiuns.
O que a psiquiatria já disse
A relação com a medicina tem uma história pesada. Entre 1900 e 1950, segundo um estudo publicado na Revista de Psiquiatria Clínica, parte dos psiquiatras do Rio e de São Paulo via as religiões mediúnicas como perigo e defendia repressão. Outros, na Bahia e em Pernambuco, viam o transe como expressão cultural, e alguns não o ligavam a doença.
Entre os fundadores da psicologia também houve divergência. Freud e Janet ligaram a mediunidade à patologia. William James e Jung admitiam que ela não fosse doença.
Segundo uma tese da UFJF, pesquisas mais recentes, coordenadas pelo psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, avaliaram 115 médiuns espíritas de São Paulo. Os médiuns experientes mostraram bom ajuste social e pouca doença mental. O início da mediunidade, porém, podia ser turbulento. Um estudo da UFJF propôs sinais de uma experiência espiritual saudável: não trazer prejuízo à vida, ser passageira, ser controlada e voltada para ajudar os outros.
Um cuidado: esses estudos foram feitos com médiuns espíritas, não com umbandistas. E nenhum deles diz se os espíritos existem: essa é uma questão de fé. Quem passa por sofrimento ou medo forte pode buscar a orientação da sua casa e, ao lado dela, um profissional de saúde.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Umbanda: as linhas e as entidades — Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Exus e Pombagiras
- Umbanda e Candomblé: 10 diferenças que quase ninguém explica
- Celebrando a Sabedoria e a Resiliência: O Dia dos Pretos Velhos
- Umbanda: Uma Religião Brasileira
Fontes
- Bruno Karasiaki Filene e Gabriel Omar Alvarez — O Transe como Performance no Candomblé e Umbanda, Revista Anthropológicas (UFPE) 32(2):225-242, 2021
- Reginaldo Prandi — Deuses africanos no Brasil (cap. I de Herdeiras do Axé), Hucitec, 1997
- Lucas Gonçalves Brito — A vibração dos corpos: notas sobre uma teoria umbandista do intercâmbio mediúnico-energético, Religião & Sociedade 37(3), 2017
- Igor Filipe de Sousa Oliveira e Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento — Quando o santo lhe pega: umbanda, mediunidade e processos educacionais, Amazônica – Revista de Antropologia (UFPA) 16(1):13-42, 2024
- Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda e Paulo Dalgalarrondo — O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão, Revista de Psiquiatria Clínica 34 (supl. 1), 2007
- Alexander Moreira de Almeida e Francisco Lotufo Neto — A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental, Revista de Psiquiatria Clínica 31(3), 2004
- Adair de Menezes Júnior — Estudo prospectivo sobre o diagnóstico diferencial entre experiências mediúnicas e transtornos mentais de conteúdo religioso, tese de doutorado, UFJF (orient. Alexander Moreira-Almeida), 2012
Exclusivo para membros do Portal
Este artigo é aberto por inteiro para os membros do Portal Afroxé. Ser membro é grátis: crie a sua conta, confirme o e-mail e volte direto para cá, com este e todos os outros textos exclusivos abertos. Como membro, você pode:
- Ler inteiros os artigos exclusivos do Portal
- Divulgar a sua casa, terreiro, loja ou serviço nos Classificados (com aprovação)
- Divulgar os seus eventos na agenda do Portal (com aprovação)
- Ter o seu blog no Portal e escrever artigos (com aprovação)
- Receber toda semana no e-mail as novidades do Portal: artigos, notícias, eventos e cursos
- Acompanhar os seus pedidos da loja
- Desconto de membro nos livros e leituras da loja (em breve)
- Receber antes os artigos e os livros novos (em breve)
- Fórum e rede social do Portal (em breve)






Deixe um comentário