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Comida de santo: o acarajé de Iansã, o amalá de Xangô e a culinária que saiu do terreiro

Acarajés dourados numa panela de barro

Quem compra um acarajé num tabuleiro de Salvador nem sempre sabe que está diante de uma comida de santo. Nas religiões de matriz africana, cozinhar não é só preparar o almoço. É também uma forma de culto. E vários pratos que hoje estão na mesa brasileira passaram, antes, pela cozinha dos terreiros.

Comer junto com o sagrado

Nas religiões afro-brasileiras, a comida é um dos laços mais fortes entre as pessoas e os orixás. O antropólogo Marcos Alvarenga, que estudou a cozinha de um terreiro de Candomblé, cita o pesquisador Raul Lody: «Os rituais são regados e celebrados pelas comidas». Para Lody, não há cerimônia, pública ou privada, em que a comida não esteja presente.

Segundo Alvarenga, cada orixá tem seus gostos e suas proibições, ligados às suas histórias e ao seu temperamento. Em muitas casas, depois das festas, a comida é partilhada entre todos os presentes. Comer junto faz parte do rito.

A cozinha do terreiro também é lugar de segredo. Os pesquisadores Paula Cacenot e Josias Costa explicam que esse saber passa de forma oral, dos mais velhos para os mais novos, e vai sendo revelado conforme o grau de iniciação. Por isso este texto fica no sentido geral. Preparo ritual não se aprende em artigo.

O acarajé de Iansã

O acarajé é o exemplo mais conhecido. Um parecer técnico do IPHAN, de 2021, explica que, na dimensão religiosa, ele é comida sagrada oferecida principalmente a Xangô e a Oiá (Iansã), e também a Obá e aos erês. O documento registra uma narrativa contada por uma sacerdotisa de Salvador que liga o acarajé ao fogo de Xangô, que Oiá passa a partilhar com ele.

Cacenot e Costa associam o acarajé sobretudo a Iansã, pela energia do fogo. As versões não brigam entre si: o bolinho aparece ligado aos dois orixás, e a ênfase muda conforme a fonte.

Essa ligação também está na rua. Dona Emília, baiana de acarajé ouvida pelo IPHAN, que diz vir de família de terreiro, resumiu assim: «O acarajé não é meu […] O acarajé é de Iansã».

O amalá de Xangô

O amalá é a comida mais associada a Xangô, orixá da justiça e do fogo. No terreiro que estudou, Alvarenga registrou que o amalá era servido a Xangô todo mês. Os devotos contaram a ele que Xangô prefere a comida quente, pela sua ligação com o fogo.

Há uma diferença de uso da palavra. Na Umbanda de linha africanista, segundo Cacenot e Costa, «amalá» pode nomear de forma geral as comidas oferecidas aos orixás e às entidades, e não um prato só.

Do terreiro para a mesa

O dossiê de registro, citado pelo IPHAN, diz que as baianas de acarajé «tornam públicos cardápios sagrados», nascidos nas cozinhas dos terreiros. Assim chegaram aos tabuleiros o acarajé, o abará, o acaçá, o bolinho-de-estudante, cocadas e bolos.

O jeito de servir mudou com o tempo. Segundo o IPHAN, o acarajé de rua era pequeno e vinha puro, na folha de bananeira, no máximo com pimenta. Depois ganhou vatapá, caruru, camarão seco e salada, e virou quase um sanduíche.

Cacenot e Costa lembram que o sociólogo Roger Bastide via a cozinha dos terreiros influenciando a própria culinária nacional. Banquetes como a feijoada de Ogum e o caruru de Cosme e Damião animam festas em muitas casas.

Patrimônio do Brasil

Em 2005, o IPHAN inscreveu o Ofício das Baianas de Acarajé no Livro dos Saberes, como patrimônio imaterial brasileiro. O pedido, de 2002, partiu da associação das baianas (ABAM), do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e do Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA. O registro vai além do bolinho: inclui o preparo, a indumentária, o tabuleiro e os sentidos que as baianas dão ao ofício.

O parecer de 2021 aponta riscos. Um deles é o chamado «bolinho de Jesus», vendido por grupos evangélicos sem a roupa de baiana e sem a ligação com o Candomblé. O documento também mostra nuances: há baianas evangélicas que respeitam a tradição. Muitas baianas relataram ofensas, como ouvir que seu acarajé era «coisa do diabo». O parecer recomendou revalidar o título e estendê-lo a todo o país.

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

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