«Qual é o meu orixá?» é uma das perguntas mais buscadas por quem se aproxima das religiões afro-brasileiras. A internet está cheia de testes que prometem a resposta em dois minutos. A resposta honesta é outra, e ela é mais interessante. Segundo os pesquisadores que estudam o Candomblé, quem identifica o orixá de cabeça é o oráculo, consultado por um sacerdote ou uma sacerdotisa preparado para isso.
O que é o orixá de cabeça
O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, resume a ideia assim: segundo o Candomblé, cada pessoa pertence a um orixá, que é o senhor da sua cabeça e da sua mente. Desse orixá a pessoa herdaria traços do corpo e do jeito de ser.
A palavra «cabeça» aqui não é só o corpo. Em iorubá, ori quer dizer cabeça, mas também a «cabeça interior», a essência de cada um. A pesquisadora Jamile Dantas, também da USP, descreve o ori como uma divindade pessoal: cada pessoa nasce com o seu. Prandi registra um dito do Candomblé: «Cabeça ruim não tem orixá». Antes de louvar os deuses, é preciso cuidar da própria cabeça.
Toda pessoa traz mais de um orixá
Outro ponto que os testes costumam ignorar: ninguém tem um orixá só. Segundo Prandi, além do orixá dono da cabeça, acredita-se que cada pessoa tem um segundo orixá, chamado juntó, que complementa o primeiro. Por isso se ouve alguém dizer «sou filho de Oxalá e Iemanjá». Em geral, se o primeiro é masculino, o segundo é feminino, e vice-versa.
E não para aí. Cada orixá tem várias qualidades: jovem ou idoso, em tempo de paz ou de guerra, rei ou súdito. Prandi diz que as combinações possíveis são «quase inesgotáveis». Um questionário de dez perguntas não dá conta disso.
Quem identifica: o jogo
Prandi escreve que descobrir o orixá de cada pessoa é «prerrogativa religiosa» do sacerdote ou da sacerdotisa, por meio do jogo de búzios. É o primeiro passo de quem quer se iniciar. E não é só para iniciados: quem vai a um terreiro para uma consulta, diz ele, em geral fica sabendo qual é o orixá dono da sua cabeça.
No Brasil, o jogo de búzios virou o oráculo mais difundido. O pesquisador Daniel Sena Lopes, da UFPA, explica que o oráculo de Ifá, usado pelos babalaôs, ficou quase sem praticantes no país até perto do fim do século XX. Ele cita Júlio Braga: quem joga precisa de estudo que «nunca é concluído», porque o jogo exige memorizar uma enorme quantidade de histórias.
Por que teste online e signo não respondem
Um teste pergunta como você é e devolve um orixá parecido. Na tradição descrita por Prandi, a lógica é a inversa. Primeiro o orixá é identificado pelo jogo. Depois, a pessoa conhece as histórias do seu orixá e pode se reconhecer nelas.
Prandi conta ainda que, quando os traços de alguém não combinam com o orixá apontado, nos meios do Candomblé às vezes se suspeita de «santo errado». A solução, nesse caso, é voltar ao oráculo e ao sacerdote, e não a um quiz. O signo também não serve: nenhuma das fontes estudadas liga data de nascimento ou signo do zodíaco ao orixá de cabeça.
E o «Calcule seu odu»?
O Portal tem a calculadora «Calcule seu odu», que usa a data de nascimento por um método popular. Ela é uma curiosidade e um convite à reflexão. Odu de nascimento não é orixá de cabeça, e a calculadora não substitui o jogo.
Vale saber também: no culto a Ifá estudado por Jamile Dantas, o odu de nascimento não sai de conta nenhuma. Ele é revelado no ritual de iniciação, entre 256 odus. E mesmo lá, diz a autora, o odu aponta «um vir a ser», não uma resposta fechada sobre quem a pessoa é.
Se a pergunta é séria, o caminho é procurar uma casa de confiança e conversar, com calma, com quem cuida dela.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Ori: a cabeça como orixá pessoal, o destino e o bori
- O que são os orixás: origem, Olorum e quantos existem
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
- Como funciona um terreiro: abiã, iaô, ebômi e os cargos do candomblé
Fontes
- Reginaldo Prandi — Deuses africanos no Brasil (cap. I de Herdeiras do Axé), Hucitec, 1997
- Jamile Dantas Nascimento Santos — Culto a Ifá no Brasil: tempo e destino numa tradição afro-cubana, dissertação de mestrado, FFCLRP-USP, 2023
- Daniel Sena Lopes — Saberes tradicionais a partir do jogo de búzios no candomblé, dissertação de mestrado, PPGEDUC-UFPA (Cametá), 2022
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