Entre os iorubás, poucas tradições são tão respeitadas quanto Ifá. É ao mesmo tempo um sistema de adivinhação, uma enorme coleção de poemas e histórias e o culto a Orunmilá, divindade da sabedoria. Em 2005, a UNESCO proclamou o sistema de adivinhação de Ifá obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade, e em 2008 o inscreveu na sua lista oficial, por proposta da Nigéria.
O babalaô e seus instrumentos
O sacerdote de Ifá é o babalaô. Diferente de outras formas de consulta, ele não entra em transe: interpreta um sistema de sinais. Para isso usa as nozes de palmeira sagradas, os ikin, e a corrente de adivinhação, o opelê. Os sinais são marcados no pó espalhado sobre o opon Ifá, a bandeja de madeira entalhada da foto acima.
Os 256 odus
O conhecimento de Ifá está organizado em odus. São 16 odus principais que, combinados entre si, formam 256. Segundo a UNESCO, cada odu reúne centenas de versos, os ese — algo em torno de 800 —, com histórias, conselhos e orientações. O babalaô passa a vida aprendendo esses versos de cor.
A UNESCO também alertou para os riscos que Ifá corre: muitos babalaôs são idosos e têm poucos recursos para formar sucessores, e a intolerância religiosa continua sendo uma ameaça.
Ifá no Brasil: Martiniano do Bonfim
No Brasil, o nome mais lembrado é o de Martiniano Eliseu do Bonfim. Nascido na Bahia em 1859, filho de africanos libertos, foi mandado pelo pai a Lagos, na atual Nigéria, onde viveu cerca de onze anos estudando a língua iorubá e as tradições africanas. Voltou a Salvador como babalaô, ajudou Mãe Aninha a criar os Obás de Xangô no Opô Afonjá (leia Ilê Axé Opô Afonjá) e foi presidente de honra do Segundo Congresso Afro-Brasileiro, em 1937. Faleceu em 1943.
Do declínio à retomada
Ao longo do século XX, os babalaôs ficaram raros no candomblé brasileiro, e a consulta passou sobretudo às iyalorixás e aos babalorixás, por meio do jogo de búzios — o merindilogun, sistema de 16 búzios aparentado ao Ifá. Nas últimas décadas, o culto de Ifá voltou a ser praticado em casas brasileiras, em contato com babalaôs nigerianos e cubanos, como mostram os estudos da antropóloga Stefania Capone.
Ifá ensina que cada pessoa tem um caminho, e que conhecê-lo ajuda a viver melhor. A consulta de verdade, porém, é sempre feita por um sacerdote preparado (leia também Dicionário iorubá do candomblé).
Leia também
- Ilê Axé Opô Afonjá
- Exu, o orixá mensageiro
- Dicionário iorubá do candomblé
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- UNESCO — «Ifa divination system» (Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade)
- Vivaldo da Costa Lima — «O candomblé da Bahia na década de 1930», Estudos Avançados, 2004
- Félix Ayoh’Omidire e Alcione Amos — «O babalaô fala: a autobiografia de Martiniano Eliseu do Bomfim», Afro-Ásia, n. 46, 2012
- Stefania Capone — Searching for Africa in Brazil: Power and Tradition in Candomblé (Duke University Press)






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