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Terreiro do Bate Folha: a casa Angola-Congo de Salvador

Fachada interna do Terreiro do Bate Folha, Manso Banduquenqué, com o ano de 1916

No bairro da Mata Escura, em Salvador, na Travessa de São Jorge, cerca de 15 hectares de Mata Atlântica abrigam um dos terreiros mais importantes da nação Congo-Angola: o Mansu Banduquenqué, conhecido como Terreiro do Bate Folha, o maior terreiro de Salvador em área (leia Nação Angola: história dos povos banto).

A fundação

O Bate Folha foi fundado em 1916 — a comunidade celebra a data em 10 de dezembro — por Manoel Bernardino da Paixão, sacerdote conhecido pelo nome ritual de Ampumandezu, que dirigiu a casa por cerca de trinta anos. Ele a organizou num terreno de mata, e a mata é parte do culto: é das folhas que vem a força dos inquices e das cerimônias, como o próprio nome do terreiro lembra.

Uma sucessão de tatas

Diferente da maioria das grandes casas de Salvador, dirigidas por mulheres, o Bate Folha é conduzido por sacerdotes homens, os tatas. Depois de Bernardino vieram Tata Bandanguame, Tata Dijineuanga, Tata Nebanji e Tata Molundurê. Desde 2007, a casa é dirigida por Tata Muguanxi, Cícero Rodrigues Franco Lima. As mulheres também guardam a memória da casa: a sacerdotisa Olga Conceição Cruz, iniciada em 1949, faleceu em 2023, aos 98 anos.

Os inquices

No Bate Folha não se cultuam orixás, mas inquices — as divindades dos povos bantos de Angola e do Congo (leia Os nkises de Angola). Nzambi é o Deus supremo; entre os inquices estão Nkosi, do ferro, Mutalambô, da caça, Kavungo, da terra e da cura, Nzazi, do trovão, Matamba, dos ventos, e Dandalunda, das águas doces. As cantigas usam palavras do kimbundo e do kikongo (leia Dicionário banto).

Candomblé de nação Angola: canto para Nkosi — vídeo do canal do Portal Afroxé.

A grande festa pública é a de Bamburucema, em 10 de dezembro, perto do dia de Santa Bárbara. A comunidade vai também à missa de Santa Bárbara na Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, seguida de procissão.

O Bate Folha do Rio

A casa ganhou uma filha no Rio de Janeiro. Por volta de 1930, João Correia de Mello, o João Lessengue, iniciado no primeiro barco de Bernardino, em 1929, mudou-se para o Rio; no começo dos anos 1940, fundou em Anchieta o Bate Folha do Rio de Janeiro, que ele dirigiu até falecer em 1970. Desde 1972, a casa carioca é conduzida pela mameto Mabeji, Floripes Correia da Silva Gomes.

Raiz banto

Os bantos foram a maioria dos africanos trazidos ao Brasil nos primeiros séculos do tráfico, e deixaram marca profunda na língua, na música e na religião (leia Tráfico atlântico). Por muito tempo, os estudiosos deram mais atenção às casas ketu e trataram o candomblé Angola como «menos puro». Pesquisadores como Nei Lopes e Yeda Pessoa de Castro ajudaram a corrigir essa injustiça, mostrando a riqueza e a antiguidade da herança banto. O Bate Folha é uma das provas vivas dessa riqueza.

Patrimônio e mata

O tombamento do Bate Folha pelo IPHAN foi aprovado em 2003, e a inscrição nos livros do tombo saiu em 2005. Em 2016, os cem anos da casa foram celebrados numa sessão especial da Assembleia Legislativa da Bahia e, em dezembro, o terreiro abriu as portas para um seminário, com selo comemorativo e uma exposição de fotos; com a Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura da Bahia, a casa anunciou a criação do Memorial Terreiro Bate Folha. A Fundação Cultural Palmares o reconhece como Território Cultural Brasileiro. O terreiro guarda um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica de Salvador, o que faz da casa, ao mesmo tempo, um templo e um refúgio de natureza.

Como toda casa de axé, é um templo vivo: visitantes vão de roupa clara e seguem as orientações da casa; os fundamentos são da comunidade.

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Fontes

Foto da capa: Terreiro do Bate Folha Salvador — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

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