No bairro da Mata Escura, em Salvador, na Travessa de São Jorge, cerca de 15 hectares de Mata Atlântica abrigam um dos terreiros mais importantes da nação Congo-Angola: o Mansu Banduquenqué, conhecido como Terreiro do Bate Folha, o maior terreiro de Salvador em área (leia Nação Angola: história dos povos banto).
A fundação
O Bate Folha foi fundado em 1916 — a comunidade celebra a data em 10 de dezembro — por Manoel Bernardino da Paixão, sacerdote conhecido pelo nome ritual de Ampumandezu, que dirigiu a casa por cerca de trinta anos. Ele a organizou num terreno de mata, e a mata é parte do culto: é das folhas que vem a força dos inquices e das cerimônias, como o próprio nome do terreiro lembra.
Uma sucessão de tatas
Diferente da maioria das grandes casas de Salvador, dirigidas por mulheres, o Bate Folha é conduzido por sacerdotes homens, os tatas. Depois de Bernardino vieram Tata Bandanguame, Tata Dijineuanga, Tata Nebanji e Tata Molundurê. Desde 2007, a casa é dirigida por Tata Muguanxi, Cícero Rodrigues Franco Lima. As mulheres também guardam a memória da casa: a sacerdotisa Olga Conceição Cruz, iniciada em 1949, faleceu em 2023, aos 98 anos.
Os inquices
No Bate Folha não se cultuam orixás, mas inquices — as divindades dos povos bantos de Angola e do Congo (leia Os nkises de Angola). Nzambi é o Deus supremo; entre os inquices estão Nkosi, do ferro, Mutalambô, da caça, Kavungo, da terra e da cura, Nzazi, do trovão, Matamba, dos ventos, e Dandalunda, das águas doces. As cantigas usam palavras do kimbundo e do kikongo (leia Dicionário banto).
A grande festa pública é a de Bamburucema, em 10 de dezembro, perto do dia de Santa Bárbara. A comunidade vai também à missa de Santa Bárbara na Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, seguida de procissão.
O Bate Folha do Rio
A casa ganhou uma filha no Rio de Janeiro. Por volta de 1930, João Correia de Mello, o João Lessengue, iniciado no primeiro barco de Bernardino, em 1929, mudou-se para o Rio; no começo dos anos 1940, fundou em Anchieta o Bate Folha do Rio de Janeiro, que ele dirigiu até falecer em 1970. Desde 1972, a casa carioca é conduzida pela mameto Mabeji, Floripes Correia da Silva Gomes.
Raiz banto
Os bantos foram a maioria dos africanos trazidos ao Brasil nos primeiros séculos do tráfico, e deixaram marca profunda na língua, na música e na religião (leia Tráfico atlântico). Por muito tempo, os estudiosos deram mais atenção às casas ketu e trataram o candomblé Angola como «menos puro». Pesquisadores como Nei Lopes e Yeda Pessoa de Castro ajudaram a corrigir essa injustiça, mostrando a riqueza e a antiguidade da herança banto. O Bate Folha é uma das provas vivas dessa riqueza.
Patrimônio e mata
O tombamento do Bate Folha pelo IPHAN foi aprovado em 2003, e a inscrição nos livros do tombo saiu em 2005. Em 2016, os cem anos da casa foram celebrados numa sessão especial da Assembleia Legislativa da Bahia e, em dezembro, o terreiro abriu as portas para um seminário, com selo comemorativo e uma exposição de fotos; com a Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura da Bahia, a casa anunciou a criação do Memorial Terreiro Bate Folha. A Fundação Cultural Palmares o reconhece como Território Cultural Brasileiro. O terreiro guarda um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica de Salvador, o que faz da casa, ao mesmo tempo, um templo e um refúgio de natureza.
Como toda casa de axé, é um templo vivo: visitantes vão de roupa clara e seguem as orientações da casa; os fundamentos são da comunidade.
Leia também
Fontes
- Correio — «Terreiro do Bate Folha completa 100 anos: conheça a história»
- Bahia Notícias — «Morre Dona Olga do Bate Folha» (2023)
- Odete Dourado — «Antigas falas, novas aparências», Risco (USP), 2011
- Nei Lopes — Novo Dicionário Banto do Brasil (Pallas, 2003)
- Portal Soteropreta — «Terreiro do Bate Folha abre as portas para celebrar 100 anos» (2016)
- Wikipédia — «Terreiro do Bate Folha»
Foto da capa: Terreiro do Bate Folha Salvador — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.






Deixe um comentário