Nos terreiros do Maranhão e da Amazônia, uma palavra aparece o tempo todo: encantado. A encantaria é o mundo dessas entidades — e entender quem elas são ajuda a entender boa parte da religiosidade afro-brasileira do Norte e do Nordeste.
Quem são os encantados
Segundo a crença, os encantados são pessoas que viveram na Terra e desapareceram sem passar pela morte: ficaram invisíveis, «encantadas». Por isso, como explica a antropóloga Mundicarmo Ferretti, eles não são espíritos de mortos. Além de nobres e caboclos, a encantaria inclui velhos, crianças, sereias e encantados que vivem em forma de cobras, aves e peixes.
Os encantados são recebidos em transe no Tambor de Mina (leia Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão), no terecô e na cura, também chamada pajelança. Só a Casa das Minas, a casa jeje mais antiga de São Luís, não os cultua: lá, a encantaria é vista como um mundo sem festas.
Gentis, turcos e caboclos
Os pesquisadores costumam dividir os encantados em famílias e categorias. Os gentis são nobres de origem europeia. Os turcos também têm origem nobre, mas, segundo a tradição, renunciaram a essa condição. Os caboclos são tipos populares, alguns de origem indígena.
O rei Sebastião e o touro da Ilha dos Lençóis
O encantado mais famoso do Maranhão é o rei Sebastião. Na história, Dom Sebastião, rei de Portugal, desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Na encantaria, ele é o chefe da encantaria dos Lençóis. Segundo o antropólogo Sergio Ferretti, nas noites de lua, nas areias da Ilha dos Lençóis, no município de Cururupu, ele aparece como um touro encantado — e sua família de nobres, vaqueiros e soldados é recebida nos terreiros. A ilha não é o Parque dos Lençóis Maranhenses, e o tema se liga ao bumba-meu-boi.
Codó, o terecô e Légua Boji Buá
No interior, a cidade de Codó é o centro do terecô, também chamado tambor da mata, religião afro-maranhense cantada em português, que Mundicarmo Ferretti associa sobretudo à herança banto. À frente da linha da mata de Codó está Légua Boji Buá, que uns classificam como caboclo e outros como vodum cambinda, chefe de uma grande família de encantados.
A cura e a pajelança também foram perseguidas: posturas municipais de Codó de 1848 já puniam quem «curava feitiço». Mais tarde, reportagens deram a Codó a fama de «capital da magia», que Mundicarmo Ferretti estudou em livro — uma fama que diz mais sobre o olhar de fora do que sobre os terreiros (leia Do calundu ao candomblé).
Do Maranhão para a Amazônia
A Mina e seus encantados chegaram ao Pará vindos do Maranhão. Mãe Doca, de Codó, é lembrada como quem levou a Mina para lá. Na Amazônia, a encantaria se misturou à pajelança cabocla. Como em toda tradição de axé, o fundamento de cada família de encantados é ensinado dentro de cada casa.
Leia também
- Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão
- Casa das Minas
- Voduns: as divindades do jeje
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Mundicarmo Ferretti — «Brinquedo de Cura em terreiro de Mina», Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 59, 2014
- João Leal — «Os encantados nas festas do Divino», Sociologia & Antropologia, 2019
- Martina Ahlert, Lima e Zalis — «Léguas’ dwelling, land of enchantment», Anuário Antropológico, 2024
- Reginaldo Prandi (org.) — Encantaria brasileira: o livro dos mestres, caboclos e encantados (Pallas, 2001)






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