Poucas palavras das religiões afro-brasileiras carregam tanto preconceito quanto Quimbanda. Durante décadas, ela foi vendida como «magia negra» e seus guias, Exus e Pombagiras, foram pintados como diabos. Os pesquisadores mostram que essa imagem diz muito mais sobre o racismo de quem a criou do que sobre a própria Quimbanda.
Um sacerdote, não um feiticeiro
A palavra vem do quimbundo, língua banto de Angola. Lá, o kimbanda era o sacerdote e médico ritual, respeitado pela comunidade. O feiticeiro que faz o mal tinha outro nome. Como lembra o pesquisador Nei Lopes, é estranho que no Brasil a palavra tenha virado sinônimo de prática maléfica. E mais: «Umbanda» e «Quimbanda» têm a mesma raiz, mbanda (leia Dicionário banto).
Foram os colonizadores europeus que, com sua ideia de bruxaria e demônio, leram os sacerdotes africanos como feiticeiros. No Brasil, os cultos dirigidos por esses sacerdotes se misturaram e geraram o calundu, a cabula e a macumba (leia Do calundu ao candomblé e Cabula, o culto banto do Espírito Santo).
Como nasceu a «magia negra»
No começo do século XX, a lei perseguia quem praticava «espiritismo, magia e sortilégios», e a polícia do Rio chegou a ter uma seção só para o chamado «baixo espiritismo» — rótulo que caía justamente sobre as práticas de origem negra.
Em 1941, o Primeiro Congresso de Umbanda, no Rio, quis criar uma Umbanda «pura» e «branca», eliminando os elementos africanos vistos como maléficos — que passaram a ser chamados de quimbanda. No ano seguinte, o livro de Lourenço Braga opôs «Umbanda, magia branca» a «Quimbanda, magia negra». Nos anos 1950, outros autores passaram a identificar Exu com o diabo cristão. «Quimbanda» virou uma acusação: era sempre o terreiro do outro.
Os estudiosos chamam esse processo de embranquecimento: tudo o que era africano e banto foi empurrado para o lado «mau». As psicólogas Juliana Carvalho e José Bairrão concluem que não cabe chamar a Quimbanda, nem qualquer prática afro-brasileira, de amoral.
Exu e Pombagira
No candomblé, Exu é o orixá mensageiro, o dono da comunicação (leia Exu, o orixá mensageiro). Sua identificação com o diabo, mostra o sociólogo Reginaldo Prandi, foi obra de observadores europeus e do sincretismo católico. Na Umbanda, Exus e Pombagiras formam a chamada «esquerda»: são as entidades mais próximas dos seres humanos, que conhecem as ruas, os caminhos e as dificuldades da vida.

A Pombagira é a força feminina dessa linha. Uma das mais conhecidas, Maria Padilha, tem o nome ligado a uma figura que aparece em processos da Inquisição na Espanha. A antropóloga Kelly Hayes dedicou um livro inteiro à relação entre uma devota do Rio e sua Pombagira.
A Quimbanda hoje
Hoje a palavra tem três sentidos: a gira de Exu e Pombagira dentro dos terreiros de Umbanda; a velha acusação; e grupos que se dizem de Quimbanda como culto próprio. Como resume Prandi, não há quimbanda sem umbanda: são duas faces da mesma religião (leia Umbanda: as linhas e as entidades). O fundamento de cada casa é ensinado pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Exu, o orixá mensageiro
- Umbanda: as linhas e as entidades
- Omolocô e Tata Tancredo
- Cabula, o culto banto do Espírito Santo
Fontes
- Mario Teixeira de Sá Junior — «Do Kimbanda à Quimbanda: encontros e desencontros», Revista Cantareira (UFF), 2004
- Juliana B. B. Carvalho e José F. M. H. Bairrão — «Umbanda e quimbanda: alternativa negra à moral branca», Psicologia USP, 2019
- Reginaldo Prandi — «Exu, de mensageiro a diabo», Revista USP, n. 50, 2001
- Kelly E. Hayes — Holy Harlots: Femininity, Sexuality, and Black Magic in Brazil (University of California Press, 2011)






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