No Maranhão, a religião de matriz africana tem nome próprio: Tambor de Mina. Ela se organizou em São Luís no século XIX e, nos anos 1990, já somava cerca de mil casas na capital, além de terreiros no interior e em estados vizinhos, como Pará, Amazonas e Piauí. Os pesquisadores destacam nela uma influência muito forte do antigo reino do Daomé, hoje Benim (leia Tráfico atlântico).
As duas casas-mães
Duas casas fundadas na primeira metade do século XIX continuam de pé no centro histórico de São Luís. A Casa das Minas, o Querebentã de Zomadônu, é de nação jeje: cultua os voduns em língua fon e é dirigida por mulheres desde a fundação (leia a história completa em Casa das Minas). A Casa de Nagô, de origem iorubá, viveu sempre muito próxima dela — tanto que também chama suas divindades de voduns, e não de orixás.
Segundo a antropóloga Mundicarmo Ferretti, a maior parte dos terreiros de Mina do Maranhão seguiu o modelo da Casa de Nagô. Durante o Estado Novo, quando os terreiros foram retirados do centro de São Luís, as duas casas conseguiram ficar por causa do seu valor histórico.
As nações da Mina
Como no candomblé, a Mina se divide em nações: Mina-Jeje, Mina-Nagô, Mina-Cambinda e Mina Fanti-Ashanti. Uma casa antiga, o Terreiro do Egito, que já desapareceu, deu origem a cerca de vinte terreiros — e, segundo a tradição da Casa Fanti-Ashanti, foi o berço dessa nação.
Voduns, gentis, caboclos e tobossis
Mundicarmo Ferretti divide as entidades que se manifestam na Mina em quatro grupos:
- voduns e orixás — as divindades africanas (leia Voduns: as divindades do jeje);
- gentis ou fidalgos — nobres de origem europeia, como o rei Sebastião;
- caboclos — tipos populares, alguns de origem indígena, como os da linha da mata de Codó;
- tobossis e meninas — entidades femininas infantis.
Fora da Casa das Minas, que cultua só os voduns, os terreiros recebem também os encantados, entidades que não morreram, mas se encantaram (leia Encantaria: quem são os encantados).
O toque
O nome da religião vem dos tambores. Na Mina-Jeje toca-se um trio de tambores, chamados hum, humpli e gumpli, com as mãos e com varetas, acompanhados pelo ferro (gã) e por cabaças enfeitadas com fitas. Na Mina-Nagô, os tocadores são os abatazeiros, os que tocam o abatá. As cantigas são entoadas em línguas africanas e, para os encantados, em português.
Quem estudou a Mina
Boa parte do que se sabe sobre o Tambor de Mina vem de dois pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão: o antropólogo Sergio Ferretti, autor de Querebentã de Zomadônu, sobre a Casa das Minas, que faleceu em 2018, e Mundicarmo Ferretti, a maior estudiosa da Mina, da encantaria e do terecô. Os fundamentos, como em toda casa de axé, são ensinados dentro de cada terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Casa das Minas
- Voduns: as divindades do jeje
- Encantaria: quem são os encantados
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Matthias Röhrig Assunção — «Tambor de Mina», Encyclopedia of Latin American History and Culture
- Marilande Martins Abreu — «Reflexões sobre a ancestralidade africana do Tambor de Mina do Maranhão», Religião & Sociedade, 2021
- Mundicarmo Ferretti — «Brinquedo de Cura em terreiro de Mina», Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 59, 2014
- Sergio Ferretti — Querebentã de Zomadônu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão (EDUFMA)






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