Exu, Ogum, Oxum, Xangô, Iemanjá, Oxalá. Os nomes estão nas músicas, nas festas de rua e nas conversas do Brasil inteiro. Mas, afinal, o que são os orixás?
Os intermediários entre Deus e os seres humanos
Òrìṣà é uma palavra iorubá. Ela nomeia os seres que ficam entre o deus supremo e as pessoas. Esse deus é Olorum, também chamado Olodumarê, o «senhor do òrun», o mundo espiritual. Segundo o antropólogo Reginaldo Prandi, Olorum encarregou os orixás de criar e governar o mundo, cada um cuidando de certos aspectos da natureza e da vida humana.
Olorum não tem culto direto: não há imagens dele nem sacerdotes próprios. A relação com ele passa pelos orixás. Na visão nagô, existem dois planos: o aiyê, o mundo físico, e o òrun, o seu duplo espiritual (leia A criação do mundo na mitologia iorubá).
Ancestrais divinizados e forças da natureza
Para o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, o orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado: alguém que, em vida, criou laços que lhe davam domínio sobre forças da natureza, como o trovão, o vento e as águas, ou sobre ofícios, como a caça e o metal. Depois da morte, a sua força, o axé, pode se manifestar num descendente durante o transe. Xangô, por exemplo, teria sido rei de Oió (leia Xangô, o orixá da justiça e do trovão).
Outros pesquisadores enfatizam o outro lado: os orixás como seres criados por Deus e ligados às forças da natureza. As duas leituras convivem, e a fronteira entre elas não é rígida.
Quantos orixás existem?
O número é simbólico. As fontes falam em 401 («400 mais um») ou em 1.444 orixás. Na prática, pesquisas em cidades iorubás mostram que só algumas dezenas são cultuadas. No Brasil, entre 12 e 16 orixás são os mais cultuados; em Cuba, de 20 a 25.
Os orixás do branco
Há um grupo especial, os orixás funfun, palavra que quer dizer «branco». O principal é Oxalá: tudo o que é dele é branco, e a sexta-feira é o seu dia (leia Oxalá, o orixá da criação).
Da família africana ao terreiro brasileiro
Na África, cada culto de orixá costumava pertencer a uma família, uma linhagem ou uma cidade, com sacerdotes próprios. A escravidão desfez essas famílias. No Brasil, cada pessoa passou a cuidar do seu orixá, e o terreiro passou a reunir muitos orixás pessoais (leia Do calundu ao candomblé).
Pelo tráfico, os orixás chegaram a várias partes das Américas: a Santería, em Cuba; o candomblé e o Xangô, no Brasil; o culto de Shango, em Trinidad. Em muitos lugares foram escondidos atrás de santos católicos: Ogum é São Jorge no Rio e Santo Antônio na Bahia (leia Ogum, o orixá do ferro e dos caminhos).
Orixá, inquice e vodum
- Orixás são as divindades dos povos de língua iorubá, cultuadas no candomblé ketu;
- inquices são as divindades dos povos bantos, cultuadas no candomblé angola (leia Os nkisis de Angola);
- voduns são as divindades dos povos ewe-fon do antigo Daomé, os jejes, cultuadas também no tambor de mina do Maranhão (leia Voduns: as divindades do candomblé jeje).
Cada nação tem seus fundamentos, ensinados dentro de cada casa pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Ori, a cabeça como orixá pessoal
- Ibeji, os orixás gêmeos
- A criação do mundo na mitologia iorubá
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos orixás (Companhia das Letras, 2001)
- Francisco Thiago Silva — «Candomblé iorubá: a relação do homem com seu orixá pessoal», Último Andar (PUC-SP)
- Sergio S. D. Vasconcelos — «A união mística com o Orixá através da participação no Axé», Horizonte (PUC Minas), v. 11, n. 30, 2013
- «Yoruba Religion and Culture in the Americas», Encyclopedia of African-American Culture and History
- Reginaldo Prandi — «Nas pegadas dos voduns: um terreiro de tambor-de-mina em São Paulo» (2005)
Foto da capa: Pierre André Leclercq — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.






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