Nas serras da Chapada Diamantina, na Bahia, existe uma religião que só existe lá: o jarê. Ele cultua orixás e caboclos, gira em torno da cura e nasceu junto com o garimpo de diamantes. Em 2025, o terreiro de jarê mais antigo em funcionamento foi tombado pelo IPHAN.
Nascido no garimpo
O jarê surgiu no século XIX, quando a corrida dos diamantes levou para as Lavras Diamantinas — Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras — africanos escravizados e gente de muitos lugares. Segundo um relato registrado pelo antropólogo Gabriel Banaggia, senhoras nagôs vindas de Cachoeira pelo rio Paraguaçu começaram o «jarê de nagô» em Lençóis e Andaraí. Faziam as cerimônias dos orixás dentro de casa, em iorubá, e cultuavam os caboclos, espíritos ligados aos indígenas, do lado de fora, em português. Com o tempo, os dois cultos se juntaram.
Para Banaggia, no jarê os caboclos não ficaram abaixo dos orixás: chegaram a ficar em pé de igualdade com eles. O pesquisador Ronaldo Senna define o jarê como um candomblé de caboclo, o encontro das entidades africanas com as entidades nativas da Chapada (leia Do calundu ao candomblé).
O curador e o diamante
O sacerdote do jarê é o curador. A tradição ensina que cada diamante tem um «dono» e se esconde de quem não o merece; por isso o garimpeiro procurava o curador para saber o que fazer antes de ir à serra. Essa ligação com o garimpo é o que torna o jarê diferente dos outros candomblés de caboclo. A entrada na religião tem, em termos gerais, duas etapas, a limpeza e o batizado, e nem todos chegam à segunda.
O calendário inclui a festa de Oxalá, no fim de agosto; o caruru de Cosme e Damião, que toma toda a região; e a festa de Iansã, perto do dia de Santa Bárbara, em dezembro. O jarê também participa da Festa do Senhor dos Passos, padroeiro dos garimpeiros.
Pedro de Laura e o Palácio de Ogum
O curador mais importante das últimas décadas foi Pedro de Laura, Pedro Florêncio Bastos, nascido em 1928. No fim dos anos 1940 ele fundou, à beira do rio Capivara, em Lençóis, o Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete Serra. Quase todos os líderes das casas de Lençóis foram iniciados ali — são os «filhos da Capivara». Pedro de Laura faleceu no fim dos anos 1990.
Em 26 de novembro de 2025, o Conselho do IPHAN aprovou o tombamento do Palácio de Ogum, pedido pela comunidade em 2007. Foi tombado o terreiro, não o jarê como um todo. Outra liderança conhecida, Pai Gil de Ogum, iniciado por Pedro de Laura, faleceu em 2021, durante a pandemia.
Desafios de hoje
Com o fim do garimpo em Lençóis, em 1990, muitas famílias deixaram as serras. Nos anos 1980, segundo Senna, havia algumas centenas de casas de jarê na Chapada; hoje são bem menos, e os terreiros costumam fechar quando o curador falece. Em julho de 2024, numa fiscalização no Parque Nacional da Chapada Diamantina, o ICMBio demoliu o terreiro do curador Damaré; o próprio órgão admitiu o erro, a demolição foi anulada e foi feito um plano de reparação. O fundamento de cada casa é passado pelo curador ou pela curadora.
Leia também
- Do calundu ao candomblé
- Toré, o ritual dos povos indígenas do Nordeste
- Umbanda: as linhas e as entidades
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- IPHAN — Parecer do tombamento do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete Serra, Lençóis (BA), 2025
- Paula Pflüger Zanardi — «Os terreiros de jarê de Lençóis-BA», GIS – Gesto, Imagem e Som (USP), 2022
- Alexandre Kaitel — resenha de Remanso: uma comunidade mágico-religiosa, de Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, Horizonte (PUC Minas), 2018
- Gabriel Banaggia — As forças do jarê (Garamond, 2015)






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