Muita gente usa «Umbanda» e «Candomblé» como se fossem a mesma coisa. Não são. As duas são religiões afro-brasileiras, as duas são legítimas e nenhuma é «mais pura» que a outra. Mas elas têm histórias e jeitos de cultuar diferentes. Vale um aviso: cada casa tem seus costumes, e o que vem abaixo é o quadro geral descrito por pesquisadores.
1. Origem e data
O Candomblé se organizou no século XIX, sobretudo na Bahia, a partir de tradições trazidas por africanos escravizados. A Umbanda nasceu no século XX, no Sudeste. A data exata é discutida. Obras religiosas apontam 1908, em Niterói, com o médium Zélio de Moraes. Parte dos estudiosos fala nos anos 1920. O sociólogo Reginaldo Prandi fala em religião «emergida nos anos 1930».
2. Quem se manifesta no transe
No Candomblé, quem se manifesta no corpo do iniciado é o orixá, para ser louvado e dançar. Na Umbanda, os protagonistas do dia a dia são os caboclos (espíritos de indígenas) e os pretos-velhos (espíritos de pessoas escravizadas). Segundo Prandi, eles têm ali papel mais presente que os próprios orixás.
3. A influência do espiritismo
A Umbanda absorveu do espiritismo de Allan Kardec a ideia de conversar com espíritos dos mortos e o valor da caridade. O Candomblé segue outra lógica: não trabalha com a noção cristã de pecado. O certo e o errado se medem pela relação de cada pessoa com o seu orixá.
4. A iniciação
No Candomblé de nação ketu, a iniciação é longa, cara e cheia de etapas. Inclui reclusão no terreiro por cerca de 21 dias, cabeça raspada e obrigações no primeiro, terceiro e sétimo ano. Na Umbanda, segundo Prandi, o processo é bem mais simples e menos custoso.
5. Oferenda de animais
No Candomblé, o culto envolve sacrifício de animais. A carne é comida pela comunidade num banquete depois da festa. A Umbanda, em geral, evita e dispensa o sacrifício de sangue.
6. A língua dos cantos
No ketu, a língua ritual vem do iorubá. Na nação angola, vem do quimbundo e do quicongo. Na Umbanda, os pontos costumam ser cantados em português. Uma pesquisa em Salvador ouviu de um adepto do ketu: «tudo em iorubá, não cantamos em português».
7. O tambor
No Candomblé, as festas acontecem sempre ao som de três tambores, chamados rum, rumpi e lé. Na Umbanda há variação. As primeiras tendas ligadas a Zélio de Moraes não usavam atabaques, só cantos e palmas, e há casas que seguem assim.
8. O lugar do caboclo
O caboclo existe nas duas, mas com papéis distintos. No Candomblé, ele está na mesma categoria dos orixás, como antigo dono da terra. Na Umbanda, fica abaixo dos orixás na escala espiritual e trabalha no atendimento ao público.
9. Exu
No Candomblé, Exu é um orixá: o mensageiro, guardião das encruzilhadas, o primeiro a ser saudado em qualquer cerimônia. Na Umbanda, exus e pombagiras são entidades da chamada «esquerda», ligadas às questões materiais da vida. Em nenhuma das duas Exu é demônio. Prandi lembra que, para os devotos, nenhum orixá é inteiramente bom nem inteiramente mau.
10. Como se busca ajuda
No Candomblé, quem procura ajuda costuma ir ao sacerdote ou à sacerdotisa para o jogo de búzios, que indica o problema e a oferenda. Na Umbanda, a orientação vem das próprias entidades em transe, que conversam com quem chega, aconselham e fazem a cura espiritual.
Fronteiras que se cruzam
Essas diferenças não são muros. Pesquisadores dividem a Umbanda em vertentes mais próximas do espiritismo e outras mais próximas dos cultos afro, e citam até casas chamadas de «umbandomblé». Prandi conta que, a partir dos anos 1960, muitos umbandistas se iniciaram no Candomblé. Em Salvador, cantigas e entidades circulam entre casas das duas religiões. Por isso, a melhor forma de conhecer uma casa é perguntar, com respeito, a quem cuida dela.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Umbanda: Uma Religião Brasileira
- As principais Nações de Candomblé
- A história do Candomblé no Brasil
- Do calundu ao candomblé: como nasceram os terreiros no Brasil
Fontes
- Reginaldo Prandi — Deuses africanos no Brasil (cap. I de Herdeiras do Axé), Hucitec, 1997
- Mackely Ribeiro Borges — Umbanda e Candomblé: pontos de contato em Salvador-BA, Anais do XVI Congresso da ANPPOM (Brasília), 2006
- Cristina Britto — O puro e o híbrido: o jogo de alteridades na formação representacional da umbanda branca, Revista Calundu (UnB) v.3 n.1, 2019
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