Acervo das religiões afro-brasileiras desde 2012

Portal Afroxé

O maior portal das religiões afro do Brasil

,

Umbanda e Candomblé: 10 diferenças que quase ninguém explica

Três atabaques de madeira ao lado de fios de contas coloridos, flores brancas e uma vela acesa

Muita gente usa «Umbanda» e «Candomblé» como se fossem a mesma coisa. Não são. As duas são religiões afro-brasileiras, as duas são legítimas e nenhuma é «mais pura» que a outra. Mas elas têm histórias e jeitos de cultuar diferentes. Vale um aviso: cada casa tem seus costumes, e o que vem abaixo é o quadro geral descrito por pesquisadores.

1. Origem e data

O Candomblé se organizou no século XIX, sobretudo na Bahia, a partir de tradições trazidas por africanos escravizados. A Umbanda nasceu no século XX, no Sudeste. A data exata é discutida. Obras religiosas apontam 1908, em Niterói, com o médium Zélio de Moraes. Parte dos estudiosos fala nos anos 1920. O sociólogo Reginaldo Prandi fala em religião «emergida nos anos 1930».

2. Quem se manifesta no transe

No Candomblé, quem se manifesta no corpo do iniciado é o orixá, para ser louvado e dançar. Na Umbanda, os protagonistas do dia a dia são os caboclos (espíritos de indígenas) e os pretos-velhos (espíritos de pessoas escravizadas). Segundo Prandi, eles têm ali papel mais presente que os próprios orixás.

3. A influência do espiritismo

A Umbanda absorveu do espiritismo de Allan Kardec a ideia de conversar com espíritos dos mortos e o valor da caridade. O Candomblé segue outra lógica: não trabalha com a noção cristã de pecado. O certo e o errado se medem pela relação de cada pessoa com o seu orixá.

4. A iniciação

No Candomblé de nação ketu, a iniciação é longa, cara e cheia de etapas. Inclui reclusão no terreiro por cerca de 21 dias, cabeça raspada e obrigações no primeiro, terceiro e sétimo ano. Na Umbanda, segundo Prandi, o processo é bem mais simples e menos custoso.

5. Oferenda de animais

No Candomblé, o culto envolve sacrifício de animais. A carne é comida pela comunidade num banquete depois da festa. A Umbanda, em geral, evita e dispensa o sacrifício de sangue.

6. A língua dos cantos

No ketu, a língua ritual vem do iorubá. Na nação angola, vem do quimbundo e do quicongo. Na Umbanda, os pontos costumam ser cantados em português. Uma pesquisa em Salvador ouviu de um adepto do ketu: «tudo em iorubá, não cantamos em português».

7. O tambor

No Candomblé, as festas acontecem sempre ao som de três tambores, chamados rum, rumpi e lé. Na Umbanda há variação. As primeiras tendas ligadas a Zélio de Moraes não usavam atabaques, só cantos e palmas, e há casas que seguem assim.

8. O lugar do caboclo

O caboclo existe nas duas, mas com papéis distintos. No Candomblé, ele está na mesma categoria dos orixás, como antigo dono da terra. Na Umbanda, fica abaixo dos orixás na escala espiritual e trabalha no atendimento ao público.

9. Exu

No Candomblé, Exu é um orixá: o mensageiro, guardião das encruzilhadas, o primeiro a ser saudado em qualquer cerimônia. Na Umbanda, exus e pombagiras são entidades da chamada «esquerda», ligadas às questões materiais da vida. Em nenhuma das duas Exu é demônio. Prandi lembra que, para os devotos, nenhum orixá é inteiramente bom nem inteiramente mau.

10. Como se busca ajuda

No Candomblé, quem procura ajuda costuma ir ao sacerdote ou à sacerdotisa para o jogo de búzios, que indica o problema e a oferenda. Na Umbanda, a orientação vem das próprias entidades em transe, que conversam com quem chega, aconselham e fazem a cura espiritual.

Fronteiras que se cruzam

Essas diferenças não são muros. Pesquisadores dividem a Umbanda em vertentes mais próximas do espiritismo e outras mais próximas dos cultos afro, e citam até casas chamadas de «umbandomblé». Prandi conta que, a partir dos anos 1960, muitos umbandistas se iniciaram no Candomblé. Em Salvador, cantigas e entidades circulam entre casas das duas religiões. Por isso, a melhor forma de conhecer uma casa é perguntar, com respeito, a quem cuida dela.

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

Leia também

Fontes

Exclusivo para membros do Portal

Este artigo é aberto por inteiro para os membros do Portal Afroxé. Ser membro é grátis: crie a sua conta, confirme o e-mail e volte direto para cá, com este e todos os outros textos exclusivos abertos. Como membro, você pode:

Quero ser membro grátis

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Respeito a todas as casas e tradições.

Receba as novidades

Artigos, notícias e eventos do axé no seu e-mail.

Leia também

Editorias

Da Biblioteca do Axé

Estrela MísticaEstrela MísticaMagia, espiritualidade e autoconhecimento: chamas gêmeas, numerologia, mantras, cristais e rituais.Conhecer a Estrela Mística

Do acervo

Continue lendo