Muita gente cresceu ouvindo que Exu é o diabo. Mas essa ideia não vem da tradição iorubá. O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, lembra que não se conhecem mitos de Exu que o identifiquem com o diabo.
Então de onde ela veio? A resposta tem data, autor e papel impresso.
Um homem entre dois mundos
Samuel Ajayi Crowther nasceu em terra iorubá, no começo do século XIX. O ano exato é incerto: as fontes falam entre 1806 e 1809.
Em 1821, ainda menino, foi capturado e vendido como escravizado. O navio foi interceptado pela Marinha britânica antes de partir. O prefácio de um livro dele, de 1852, diz que ele foi resgatado de traficantes brasileiros. Outras fontes falam em traficantes portugueses.
Libertado em Serra Leoa, Crowther foi educado por missionários anglicanos. Virou padre e, em 1864, o primeiro bispo africano da Igreja Anglicana. Sua missão era escrever a língua iorubá e traduzir a Bíblia para ela.
Para isso, ele precisava achar uma palavra iorubá para cada ideia cristã. Inclusive para o diabo.
O verbete de 1852
Crowther publicou sua primeira gramática e vocabulário do iorubá em 1843. Em 1852 saiu em Londres uma versão ampliada, com quase 3 mil palavras.
Nela, o verbete «Esu» traz a tradução: «devil; Satan», ou seja, «diabo; Satanás». O nome Elegbara, outro nome de Exu, aparece como «deus da travessura, Satanás».
Não foi uma escolha isolada. O pesquisador Carlos Henrique Onà Veloso, em artigo de 2021, mostra que o mesmo vocabulário fez outras trocas. A palavra «ẹ̀ṣẹ̀», que queria dizer ofensa ou crime, virou «pecado». E Olodumare foi igualado ao Deus cristão.
Ele não estava sozinho
Crowther não inventou essa leitura sozinho. Desde o século XVIII, viajantes e missionários europeus descreviam Exu pelo olhar cristão.
Em 1857, o pastor americano Thomas Bowen escreveu que, em iorubá, o diabo se chamava Exu. No seu dicionário de 1858, o verbete diz: «o diabo, Satanás».
Em 1884, o padre católico Baudin, da Sociedade das Missões Africanas de Lyon, publicou na França um livro sobre a religião iorubá. Numa gravura, Exu aparece com a legenda «o malvado espírito ou o Demônio».
Pierre Verger resumiu assim: os primeiros missionários, espantados com o caráter de Exu, o assimilaram ao diabo.
Na Bíblia, duas palavras
Na década de 1880, a Bíblia iorubá ficou pronta, com Crowther à frente do trabalho. Numa edição do Novo Testamento de 1887, há um detalhe revelador.
No relato da tentação de Jesus, no Evangelho de Mateus, Satanás é chamado de «Satani», palavra emprestada. Mas um versículo depois, «o diabo» virou «Eṣu». O nome de um orixá passou a ocupar o lugar do inimigo de Deus.
Um estudo nigeriano de 2022 aponta que esse uso se manteve nas traduções seguintes. Por isso, desde 2014, religiosos tradicionais iorubás fazem a campanha «Exu não é Satanás».
E como isso chegou ao Brasil?
Aqui as fontes pedem cuidado. Os textos que lemos não mostram a Bíblia de Crowther circulando nos terreiros brasileiros. O caminho principal foi outro, mas nasceu do mesmo olhar.
Segundo Prandi, o sincretismo católico aproximou os orixás dos santos. Oxalá ficou perto de Jesus. Faltava alguém no papel do diabo, e Exu, que não segue regras comuns, foi empurrado para lá.
Em 1900, o médico Nina Rodrigues já notava, na Bahia, essa confusão entre o povo de santo. E dizia acreditar que ela era fruto do ensino católico.
No século XX, a imagem de Exu ganhou chifres, rabo e pés de bode, coisas que ele nunca teve na África. Para Prandi, a maldição lançada na África foi completada no Brasil.
O que fica
Contar essa história não é atacar a fé de ninguém. É mostrar que uma palavra escolhida por um tradutor pesou sobre um povo inteiro.
Exu é orixá. É o mensageiro, cultuado com respeito nos terreiros até hoje. A confusão tem história e tem data. A tradição é muito mais antiga.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Exu: quem é o orixá mensageiro, cores, dia e saudação
- Quimbanda: o que é, de verdade, e por que não é «magia negra»
- O que são os orixás: origem, Olorum e quantos existem
Fontes
- Reginaldo Prandi — Exu, de mensageiro a diabo: sincretismo católico e demonização do orixá Exu, Revista USP n. 50, 2001
- Samuel Crowther (introd. O. E. Vidal) — A Vocabulary of the Yoruba Language, Seeleys (Londres), 1852
- Thomas Jefferson Bowen — Grammar and Dictionary of the Yoruba Language, Smithsonian Institution, 1858
- Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira — Testamenti Titun ti Jesu Kristi (Novo Testamento em iorubá), Londres, 1887
- Carlos Henrique Onà Veloso — Èṣù e a origem do «tempo que passa» na tradição yorùbá, Anais de Filosofia Clássica n. 30, 2021
- Olatunde O. Ogunbiyi e Bosede A. Olusola — Understanding the Bible in the Nigerian Context: an Examination of Esu in the Yoruba Bible, repositório da Universidade de Ilorin, 2022
- Global Voices — Esu is not Satan: a Yoruba campaign against religious discrimination, 2025
- Dictionary of African Christian Biography — Samuel Ajayi Crowther
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