O convite veio de uma amiga. O endereço está anotado, a roupa está separada. Mesmo assim, a dúvida aparece na porta: e se eu fizer algo errado? E se eu sentar no lugar errado, vestir a cor errada, rir na hora errada?
Esse medo é comum. E quase sempre é maior do que o risco. Quem vai pela primeira vez a uma gira de umbanda ou a uma festa pública de candomblé pode encontrar som de atabaque, cantos, cheiro de defumação e muita gente de branco. É muita coisa ao mesmo tempo. Um pesquisador que relatou seus primeiros passos no candomblé em Fortaleza contou que, depois de um dos primeiros encontros com o povo de santo, saiu com a cabeça latejando de tanta novidade.
A boa notícia: ninguém espera que o visitante saiba tudo. O que se espera é respeito.
Antes de tudo: cada casa tem suas regras
Não existe um manual único. Só na capital paulista e na região metropolitana, o sociólogo Reginaldo Prandi, autor de Os candomblés de São Paulo, estima haver cerca de mil casas de candomblé e outras mil de umbanda, em entrevista à revista Pesquisa FAPESP. Cada uma tem seus costumes. O que vale numa pode não valer na outra.
Por isso, a regra de ouro é perguntar antes. Se alguém convidou você, pergunte a essa pessoa que roupa usar, que horas chegar e como se portar. É o que recomenda Sidnei Nogueira, em coluna na CartaCapital. Se a casa tem perfil nas redes sociais, ele sugere acompanhar por um tempo e depois mandar mensagem pedindo para visitar.
O que vestir
A orientação mais repetida é roupa branca ou clara, discreta, adequada a um ambiente religioso. Nogueira sugere evitar preto e vermelho, com uma exceção: as cerimônias para Exus e Pombagiras.
Aqui as casas variam bastante. Reportagem da Alma Preta lembra que muitos terreiros usam preto e vermelho quando Exu e Pombagira chegam à gira, enquanto outros trabalham sempre de branco, qualquer que seja a gira. Mais um motivo para perguntar.
Ao chegar
Chegue com calma. Procure uma pessoa com cargo na casa, como um ogã ou uma equede. Apresente-se e diga que é sua primeira vez. Pergunte onde e como se acomodar.
Não estranhe se houver lugares separados. Em alguns terreiros, homens ficam de um lado e mulheres do outro, como descreve a Alma Preta.
Durante a cerimônia
Na umbanda, o público costuma ser chamado de assistência. São as pessoas que acompanham enquanto os médiuns, vestidos de branco, conduzem a gira no centro do terreiro, como descreveu a Gazeta do Povo numa visita a um terreiro de Curitiba. Pode haver cantos chamados pontos, atabaques, defumação e incorporação de entidades, como pretos-velhos e caboclos. Também pode haver consultas com essas entidades.
No candomblé, as festas públicas costumam receber quem é de fora. O pesquisador citado no começo, Ozaias da Silva Rodrigues, resumiu o que aprendeu cedo: não fazer muitas perguntas, e sim observar, ouvir e obedecer. Boa parte dos fundamentos é transmitida só a iniciados. Ele conta que, quando entendeu uma saudação que a plateia respondia, passou a responder junto.
Ou seja: não precisa fazer nada além de estar presente com atenção. Se for chamado a participar de algo, tudo bem dizer que é sua primeira vez e perguntar o que fazer.
Fotos e celular
Não fotografe nem filme sem pedir. Segundo Nogueira, fotos e filmagens não são bem-vindas sem consulta prévia, e há casas em que são totalmente proibidas. O mais seguro é deixar o celular guardado.
Vá de coração aberto
Você não precisa acreditar em nada para visitar. Precisa respeitar quem está ali. Nas palavras de Nogueira, pessoas respeitosas e educadas são sempre bem-vindas.
A primeira visita é só isso: uma primeira visita. Observe, pergunte com educação e siga o que a casa pedir. O resto se aprende com o tempo, e com quem é de lá.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Umbanda: Uma Religião Brasileira
- Como funciona um terreiro: abiã, iaô, ebômi e os cargos do candomblé
- Ekede: o que é, o que faz e como é escolhida no candomblé
- O que é axé? A força vital do povo de terreiro
Fontes
- Sidnei Nogueira — Você gostaria de conhecer um terreiro? Saiba quais os caminhos, CartaCapital (blog Diálogos da Fé), 2023
- Aline Bernardes — Umbanda: bater cabeça, firmar ponto, abrir e fechar a gira ainda são expressões por vezes proibidas, Alma Preta, 2020
- Marcio Renato dos Santos — Questão de fé e de cultura, Gazeta do Povo (Caderno G), 2008
- Ozaias da Silva Rodrigues — Do Evangelho ao Candomblé: a inserção de um pesquisador evangélico nas religiões de matriz africana, Revista Discente Planície Científica (UFF), 2019
- Christina Queiroz — Reginaldo Prandi e a ciência dos terreiros (entrevista), Revista Pesquisa FAPESP, ed. 362, 2026
- Reginaldo Prandi — Os candomblés de São Paulo: a velha magia na metrópole nova, Hucitec/Edusp, 1991
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