Foto da capa: audiência pública sobre intolerância religiosa na Comissão de Direitos Humanos, Brasília, 10/06/2026. Foto: Tony Winston/Câmara dos Deputados — ver matéria original.
Foram 2.774 denúncias de intolerância religiosa em pouco mais de um ano. É o que registrou o Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 — acima das 2.472 violações contadas em todo o ano de 2024. E, mais uma vez, as religiões de matriz africana aparecem no topo da lista.
Quem mais sofre
Entre as denúncias em que a religião da vítima foi informada, os números do ministério são estes:
- Umbanda: 228 denúncias
- Candomblé: 161
- Umbanda e Candomblé juntos: 47
- Outras religiosidades de matriz africana: 40
- Evangélica: 72 · Católica: 37 · Espírita: 30
Somadas, as tradições de matriz africana passam de 470 denúncias — mais de três vezes as de evangélicos, católicos e espíritas juntos —, embora reúnam cerca de 1% da população, segundo o Censo. Os estados com mais registros foram São Paulo (667), Rio de Janeiro (446), Minas Gerais (323) e Bahia (211), mas houve denúncias em todas as regiões do país.
O que dizem os terreiros
A pesquisa Respeite Meu Terreiro, feita pelo ministério com a Unirio, ouviu lideranças de 255 terreiros: 76% disseram que a casa já sofreu racismo religioso e 80% contaram que integrantes da comunidade foram vítimas diretas. Discriminação, xingamentos, ameaças, depredação e rituais interrompidos à força estão entre as violências relatadas.
O tema chegou à Câmara dos Deputados em 10 de junho, numa audiência da Comissão de Direitos Humanos pedida pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Mãe Zana de Odé, de Carapicuíba (SP), cujo terreiro foi demolido pela prefeitura em 2022, pediu que o Incra reconheça os terreiros como territórios tradicionais. Pai Walmir Damasceno, do Instituto Latinoamericano de Tradições Afro Bantu (Ilabantu), defendeu um mapeamento nacional das casas.

O Brasil não pode ser conivente com essa perseguição sistemática aos povos de matriz africana.
Pai Walmir Damasceno, na audiência da Câmara (10/06/2026)
Na mesma audiência, o governo informou que o orçamento federal para essas políticas passou de R$ 2,5 milhões em 2023 para R$ 115 milhões em 2025 e 2026 — valor que a própria diretora do Ministério da Igualdade Racial, Luzineide Miranda Borges, chamou de «ainda muito pouco».
Como denunciar
- Ligue 100 — gratuito, 24 horas, inclusive fins de semana e feriados;
- WhatsApp: (61) 99611-0100;
- Telegram: procure por «direitoshumanosbrasil»;
- A denúncia pode ser anônima e pode ser feita pela vítima ou por quem presenciou.
O 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (Lei nº 11.635/2007), criado em memória de Mãe Gilda, ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador, que morreu em 21 de janeiro de 2000 depois de ser vítima de ataques motivados por intolerância.
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