No 2 de novembro, o Brasil inteiro lembra os seus mortos. Para o povo de axé, porém, os que vieram antes não estão longe: a ancestralidade é um dos pilares das religiões de matriz africana. Honrar os ancestrais é reconhecer que a nossa fé, o nosso nome e o nosso axé chegaram até aqui pelas mãos deles.
Quem são os Egunguns
Na tradição iorubá, Egungun (ou Egum) é o espírito de um ancestral ilustre — uma pessoa importante para a sua comunidade, que depois da morte passa a ser cultuada. O culto aos Egunguns é diferente do culto aos orixás e acontece em casas próprias, separadas dos terreiros de orixá.
Quando se manifestam nas cerimônias, os Egunguns — chamados com respeito de Babá Egum — aparecem inteiramente cobertos por vestes ricas e coloridas, em camadas de tecido que escondem todo o corpo e o rosto. Eles dançam, falam com a comunidade e trazem conselhos: são os antepassados presentes entre os vivos.
Itaparica: o coração do culto no Brasil
O principal centro do culto aos Egunguns no Brasil fica na Ilha de Itaparica, na Bahia, em Ponta de Areia. Ali estão casas históricas como o Omo Ilê Agboulá, fundado por volta de 1940 por Eduardo Daniel de Paula e seus familiares — que manteve o culto vivo mesmo sob perseguição policial — e o Ilê Olokotun, que segundo o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) foi fundado em 1850. O Ipac preparou um dossiê para pedir o registro dos terreiros de Egungun como patrimônio imaterial da Bahia.
Em Salvador, o culto ganhou outra casa em 1980, quando Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos, 1917–2013) fundou o Ilê Asipá. Escultor, escritor e sacerdote, Mestre Didi era o Alapini — o sacerdote supremo do culto aos Egunguns. A antropóloga Juana Elbein dos Santos, sua companheira, registrou parte desse universo no livro Os Nàgô e a Morte, uma das obras de referência sobre o tema.
O 2 de novembro nos terreiros
Em muitas casas de Umbanda e de Candomblé, o Dia de Finados é dedicado à memória dos que partiram: dos antepassados de sangue, dos mais velhos da casa e de quem ajudou a construir o caminho. A forma de homenagear varia muito — cada casa tem o seu fundamento, e quem tem dúvida deve perguntar ao seu pai ou à sua mãe de santo.
Para todos, fica o convite: neste 2 de novembro, lembre o nome de quem veio antes de você. Acenda a sua luz, conte a história dos seus mais velhos e mantenha viva a memória — é assim que os ancestrais continuam caminhando com a gente.
Que os nossos ancestrais sejam sempre lembrados. Axé!
Leia também: Religiões afro-brasileiras e Celebrando a sabedoria e a resiliência: o Dia dos Pretos Velhos.
Fontes
- SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nàgô e a Morte: pàde, àsèsè e o culto égun na Bahia. Petrópolis: Vozes, 1976
- Bahia Notícias — Ipac elabora dossiê sobre culto aos Egunguns para solicitar registro especial (24/10/2016)
- Jornal Grande Bahia — Viva Egun, Babá Alapalá!, por Juarez Duarte Bomfim (2013)






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