Pouca figura religiosa brasileira é tão mal falada quanto a Pombagira. Para muita gente, ela é «coisa do mal». Para outros, é só sedução e amarração. As duas ideias simplificam demais.
O sociólogo Reginaldo Prandi chama a Pombagira de talvez a mais controversa entidade das religiões afro-brasileiras. Ela nasceu na Quimbanda e hoje é cultuada na maioria dos terreiros de Umbanda e em boa parte dos de Candomblé. E, ao lado dela, aparece um nome que atravessou seis séculos: Maria Padilha.
Este texto conta quem é a Pombagira e de onde vem essa história.
De onde vem o nome
A palavra Pombagira tem raiz banta. Nos candomblés Congo e Angola, um dos nomes do mensageiro equivalente a Exu é Bombogira (ou Bambojira). Para Prandi, Pombagira é «certamente uma corruptela» desse nome. Com o tempo, ele passou a designar só a face feminina.
A historiadora Marlyse Meyer também liga o nome ao banto, mas com mais cautela: diz que vem «provavelmente» de bombo-giro.
Pesquisas sobre o Candomblé Angola citam também Pambu Njila e Bombogira entre os inquices dos caminhos e das passagens. As fontes concordam na raiz banta e na ligação com os caminhos. O trajeto exato da palavra ainda não está fechado.
Uma mulher de carne e osso
Maria Padilha existiu. Foi María de Padilla, uma nobre de Castela, na Espanha. Em 1352, ela foi apresentada ao rei Pedro I e foi sua companheira até morrer, em 1361.
Em 1362, já viúvo, o rei declarou nas Cortes de Sevilha que tinha se casado com ela antes do casamento oficial com Blanca de Borbón, e as filhas do casal foram reconhecidas como infantas.
A memória dela se dividiu em duas. Uma versão a trata bem. A outra, mais espalhada, vem da crônica de Pero López de Ayala, contemporâneo do rei. Nela, María aparece como a mulher que instigava os crimes do rei. Meyer mostra como poemas populares espanhóis passaram a chamá-la de «manceba falsa» e até de feiticeira.
Da feiticeira ao nome invocado
Para Meyer, a raiz dessa mudança foi a misoginia da época, que tinha medo da mulher bonita e livre. Aos poucos, a bela amante do rei virou um nome invocado em feitiços de amor.
Processos da Inquisição espanhola registram mulheres chamando por «doña María de Padilla y toda su cuadrilla». Entre elas, havia ciganas e também cristãs-velhas.
O nome atravessou a fronteira. Em Portugal, a Inquisição condenou Antonia Maria de Beja, que foi degredada para Angola e depois para o Recife. Nos autos, estudados pela historiadora Laura de Mello e Souza, ela invoca Maria Padilha com toda a sua quadrilha.
Como esse nome chegou aos terreiros? Meyer admite que é difícil responder. O que se sabe é que a Umbanda, no século XX, chamou de Maria Padilha uma das mais respeitadas pombagiras. Muitos a veem como rainha, de origem nobre. Meyer não diz que é a mesma pessoa. Ela mostra um nome que viajou e se transformou.
Nem demônio, nem só sedução
Na Umbanda, Exus e Pombagiras são espíritos de pessoas que viveram à margem. A associação com o diabo veio do catolicismo, não da África. Prandi observa que, no dia a dia dos terreiros, essa ligação pesa pouco. Os fiéis tratam essas entidades com intimidade.
A Pombagira é lembrada como uma mulher que sofreu e por isso entende as dores dos outros. A pesquisadora Kelly Hayes acompanhou uma devota numa favela do Rio de Janeiro. Ela liga essa devoção às disputas de gênero e à violência da vida na periferia.
Por isso, reduzir a Pombagira a sexo ou a «trabalho de amarração» é pouco. Para quem a cultua, ela fala de força, de liberdade e de não aceitar calada o lugar que a sociedade impõe.
Cada casa tem seus fundamentos. Quem quiser conhecer de perto deve procurar um sacerdote ou sacerdotisa de confiança.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Quimbanda: o que é, de verdade, e por que não é «magia negra»
- Umbanda: as linhas e as entidades — Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Exus e Pombagiras
- Exu: quem é o orixá mensageiro, cores, dia e saudação
Fontes
- Marlyse Meyer — Feitiços do amor, Revista USP n. 31, 1996
- Marlyse Meyer — Maria Padilha e toda a sua quadrilha: de amante de um rei de Castela a Pomba-Gira de Umbanda, Duas Cidades, 1993
- Reginaldo Prandi — Coração de Pombagira, Revista Esboços (UFSC), v. 17, n. 23, 2010
- Laura de Mello e Souza — O diabo e a Terra de Santa Cruz, Companhia das Letras, 1986
- Kelly E. Hayes — Holy Harlots: Femininity, Sexuality, and Black Magic in Brazil, University of California Press, 2011
- Real Academia de la Historia — María de Padilla, Diccionario Biográfico electrónico
- Real Academia de la Historia — Isabel de Castilla, Diccionario Biográfico electrónico
- Gilterlan Celestino Trindade — Njila, o senhor dos caminhos: Exu no candomblé de Angola em Aracaju, Sergipe, dissertação UFS, 2026
- Rodney William — Maria Padilha: ela é bonita, ela é mulher, CartaCapital (Diálogos da Fé), 2018
- Bárbara Carvalho — Pombagira: a força feminina que atravessa Equilibrivm II, de Anitta, CNN Brasil, 2026
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