Ebó, despacho e oferenda aparecem quase sempre juntos, como se fossem a mesma coisa. Às vezes são usados assim mesmo. Mas cada palavra tem uma origem e um peso diferente. Este texto fica só no sentido geral delas, do jeito que os pesquisadores descrevem. Não é um guia de como se faz nada.
Oferenda: a palavra mais ampla
«Oferenda» é palavra do português e a mais genérica das três. É o que se oferece a uma divindade. O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, explica a lógica de fundo herdada dos antigos iorubás: os seres humanos dividem com os orixás sua comida e sua bebida, cuidam deles como parte da família. Em troca, os orixás protegem, ajudam e dão identidade aos seus descendentes. Por isso muitos estudos falam em «oferendas ou ebós», lado a lado.
Ebó: palavra iorubá
«Ebó» vem do iorubá ẹbọ. Uma dissertação de 2020 da UFRRJ, citando o pesquisador José Beniste, registra que ẹbọ significa «oferenda» e vem do verbo bọ, que quer dizer alimentar. Segundo o mesmo trabalho, em iorubá não há nomes diferentes para tipos de oferenda: todas são chamadas de ẹbọ.
No Brasil, porém, a palavra ganhou um uso mais específico. Prandi descreve o ebó como um «sacrifício propiciatório», às vezes recomendado depois do jogo de búzios para resolver um problema da pessoa. A arqueóloga e sacerdotisa Luciana Novaes vai além: trata o ebó como uma tecnologia africana guardada nos terreiros, que serve para pôr o axé em movimento. Ela distingue ebós de limpeza e ebós de oferenda, e resume: «ebó não é um padrão». Cada situação pede uma coisa, e isso fica dentro da casa.
Despacho: a palavra do português que mais sofreu
«Despachar», em português, é mandar embora, enviar. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, da USP, usa a palavra nesse sentido: certos espíritos que perturbam as pessoas «devem ser despachados (mandados embora)» em rituais de limpeza espiritual.
Mas o termo também teve outro uso. O etnógrafo Edison Carneiro, em 1961, chamava de «despacho de Exu» o rito que abre a festa no Candomblé, para pedir licença a Exu. Ou seja: na literatura clássica, despacho podia ser um gesto de respeito, não uma ameaça.
No uso popular, as fronteiras se apagam. Um artigo de geografia de José Roberto Collaço e Rita Lana fala em «despachos, ebós ou popularmente as “macumbas”» como um mesmo conjunto. Há autores que usam as palavras como sinônimos e outros que as separam. As duas formas aparecem nas fontes.
Por que «despacho» virou sinônimo de coisa ruim
A imprensa teve papel nisso. O historiador Marcos Paulo Amorim Santos analisou o jornal O Estado de S. Paulo entre 1930 e 1950. Em 1938, o jornal descrevia «despachos» como «feitiços que, quando postos nas encruzilhadas dos caminhos, têm a propriedade de criar malefícios». Na década de 1940, a palavra «macumba» passou a ser ligada sobretudo aos despachos deixados na rua. Essa época era de perseguição policial às religiões afro-brasileiras.
Pesa também a demonização de Exu. Prandi mostra que os primeiros europeus na África já associaram Exu ao diabo. E o costume de dizer que Exu «não trabalha sem pagamento» acabou lhe dando, sob o olhar cristão, a imagem de mercenário. Os mesmos autores, citando outro pesquisador, registram que muitos cristãos rotulam oferendas como «poluição simbólica» do espaço público.
Luciana Novaes relata ter sido hostilizada por um motorista enquanto cumpria um rito numa rua de mata, na Bahia. Para ela, esse não é um caso isolado: é racismo religioso.
E a natureza?
A preocupação ambiental é real e vem de dentro das próprias religiões. Um estudo de 2022 sobre a festa de Iemanjá em Tramandaí (RS) contou resíduos de plástico e outros materiais nas praias. O mesmo estudo lembra a sacerdotisa Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, que em 2016 decidiu que o presente de Iemanjá da sua casa não poluiria mais o mar. Novaes registra que o povo de terreiro em Salvador e Juazeiro valoriza materiais que se desfazem rápido.
Os autores alertam, porém, para o outro lado: muitas vezes há «intolerância e racismo disfarçados de consciência e preocupação ecológica». Cuidar da natureza e respeitar a fé não são coisas opostas.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
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Fontes
- Reginaldo Prandi — Exu, de mensageiro a diabo: sincretismo católico e demonização do orixá Exu, Revista USP n. 50, 2001
- Reginaldo Prandi — Deuses africanos no Brasil (cap. I de Herdeiras do Axé), Hucitec, 1997
- Tione Echkardt Vieira de Carvalho — Ẹbọ Òrìṣà: uma análise da liturgia Yorùbá na ontologia do ẹbọ ẹ̀jẹ̀, dissertação de mestrado em Psicologia, UFRRJ, 2020
- Luciana de Castro Nunes Novaes — A tecnologia do ebó: arqueologia de materiais orgânicos em contextos afro-religiosos, Revista de Arqueologia (SAB) v.34 n.3, 2021
- Vagner Gonçalves da Silva — Exu do Brasil: tropos de uma identidade afro-brasileira nos trópicos, Revista de Antropologia (USP) v.55 n.2, 2012
- José Roberto Américo Collaço e Rita de Cássia Lana — Terra de despacho: Umbanda, reflexões e conflitos no uso do espaço público, Caderno de Geografia (PUC Minas) v.31 n.66, 2021
- Marcos Paulo Amorim Santos — Macumbas no jornal «O Estado de São Paulo»: discursos e repressões, 1930-1950, Revista Eletrônica Discente História.com (UFRB) v.3 n.5, 2016
- Antonio Carlos Venancio Aniceto e Tatiane Melissa Scoz — Religiões afro-brasileiras e educação ambiental: análises sobre resíduos sólidos urbanos em oferendas a Iemanjá em Tramandaí (RS), Revbea v.17 n.2, 2022
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