Acervo das religiões afro-brasileiras desde 2012

Portal Afroxé

O maior portal das religiões afro do Brasil

, ,

Ebó, despacho e oferenda: qual a diferença?

Rosas boiando na água do mar

Ebó, despacho e oferenda aparecem quase sempre juntos, como se fossem a mesma coisa. Às vezes são usados assim mesmo. Mas cada palavra tem uma origem e um peso diferente. Este texto fica só no sentido geral delas, do jeito que os pesquisadores descrevem. Não é um guia de como se faz nada.

Oferenda: a palavra mais ampla

«Oferenda» é palavra do português e a mais genérica das três. É o que se oferece a uma divindade. O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, explica a lógica de fundo herdada dos antigos iorubás: os seres humanos dividem com os orixás sua comida e sua bebida, cuidam deles como parte da família. Em troca, os orixás protegem, ajudam e dão identidade aos seus descendentes. Por isso muitos estudos falam em «oferendas ou ebós», lado a lado.

Ebó: palavra iorubá

«Ebó» vem do iorubá ẹbọ. Uma dissertação de 2020 da UFRRJ, citando o pesquisador José Beniste, registra que ẹbọ significa «oferenda» e vem do verbo bọ, que quer dizer alimentar. Segundo o mesmo trabalho, em iorubá não há nomes diferentes para tipos de oferenda: todas são chamadas de ẹbọ.

No Brasil, porém, a palavra ganhou um uso mais específico. Prandi descreve o ebó como um «sacrifício propiciatório», às vezes recomendado depois do jogo de búzios para resolver um problema da pessoa. A arqueóloga e sacerdotisa Luciana Novaes vai além: trata o ebó como uma tecnologia africana guardada nos terreiros, que serve para pôr o axé em movimento. Ela distingue ebós de limpeza e ebós de oferenda, e resume: «ebó não é um padrão». Cada situação pede uma coisa, e isso fica dentro da casa.

Despacho: a palavra do português que mais sofreu

«Despachar», em português, é mandar embora, enviar. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, da USP, usa a palavra nesse sentido: certos espíritos que perturbam as pessoas «devem ser despachados (mandados embora)» em rituais de limpeza espiritual.

Mas o termo também teve outro uso. O etnógrafo Edison Carneiro, em 1961, chamava de «despacho de Exu» o rito que abre a festa no Candomblé, para pedir licença a Exu. Ou seja: na literatura clássica, despacho podia ser um gesto de respeito, não uma ameaça.

No uso popular, as fronteiras se apagam. Um artigo de geografia de José Roberto Collaço e Rita Lana fala em «despachos, ebós ou popularmente as “macumbas”» como um mesmo conjunto. Há autores que usam as palavras como sinônimos e outros que as separam. As duas formas aparecem nas fontes.

Por que «despacho» virou sinônimo de coisa ruim

A imprensa teve papel nisso. O historiador Marcos Paulo Amorim Santos analisou o jornal O Estado de S. Paulo entre 1930 e 1950. Em 1938, o jornal descrevia «despachos» como «feitiços que, quando postos nas encruzilhadas dos caminhos, têm a propriedade de criar malefícios». Na década de 1940, a palavra «macumba» passou a ser ligada sobretudo aos despachos deixados na rua. Essa época era de perseguição policial às religiões afro-brasileiras.

Pesa também a demonização de Exu. Prandi mostra que os primeiros europeus na África já associaram Exu ao diabo. E o costume de dizer que Exu «não trabalha sem pagamento» acabou lhe dando, sob o olhar cristão, a imagem de mercenário. Os mesmos autores, citando outro pesquisador, registram que muitos cristãos rotulam oferendas como «poluição simbólica» do espaço público.

Luciana Novaes relata ter sido hostilizada por um motorista enquanto cumpria um rito numa rua de mata, na Bahia. Para ela, esse não é um caso isolado: é racismo religioso.

E a natureza?

A preocupação ambiental é real e vem de dentro das próprias religiões. Um estudo de 2022 sobre a festa de Iemanjá em Tramandaí (RS) contou resíduos de plástico e outros materiais nas praias. O mesmo estudo lembra a sacerdotisa Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, que em 2016 decidiu que o presente de Iemanjá da sua casa não poluiria mais o mar. Novaes registra que o povo de terreiro em Salvador e Juazeiro valoriza materiais que se desfazem rápido.

Os autores alertam, porém, para o outro lado: muitas vezes há «intolerância e racismo disfarçados de consciência e preocupação ecológica». Cuidar da natureza e respeitar a fé não são coisas opostas.

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

Leia também

Fontes

Exclusivo para membros do Portal

Este artigo é aberto por inteiro para os membros do Portal Afroxé. Ser membro é grátis: crie a sua conta, confirme o e-mail e volte direto para cá, com este e todos os outros textos exclusivos abertos. Como membro, você pode:

Quero ser membro grátis

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Respeito a todas as casas e tradições.

Receba as novidades

Artigos, notícias e eventos do axé no seu e-mail.

Leia também

Editorias

Da Biblioteca do Axé

Estrela MísticaEstrela MísticaMagia, espiritualidade e autoconhecimento: chamas gêmeas, numerologia, mantras, cristais e rituais.Conhecer a Estrela Mística

Do acervo

Continue lendo