Egbé Orun (Ẹgbẹ́ Ọ̀run) quer dizer «a sociedade do céu». Para os iorubás, é a turma de companheiros que vive no ọ̀run, o mundo espiritual, e que pode chamar de volta algumas crianças que nascem aqui. Essas crianças são os àbíkú, «nascidos para morrer». O Egbé é do culto tradicional iorubá, na Nigéria; no candomblé brasileiro quase não tem culto próprio.
Três tipos de àbíkú
Nem toda criança que morre cedo é atribuída ao Egbé. O pesquisador George Ajíbádé, da Universidade Obafemi Awolowo, em Ilê-Ifé, ouviu dos iorubás três tipos de àbíkú: o que a doença levou, o que a feitiçaria levou e o àbíkú ẹgbẹ́run, o da sociedade do céu. Só este último pertence ao Egbé, e é dele que falam as cantigas. Também é chamado de emèrè.
A mãe que preside
Segundo Ajíbádé, o Egbé tem uma líder, a Ìyá Èrè, também chamada nas cantigas de Ìyá Jànjàsá. É ela quem preside as reuniões e dá, ou nega, licença para um membro vir ao mundo. Nas histórias de Ifá contadas por babalaôs da Nigéria e publicadas por Pierre Verger, a Ìyájànjàsà chefia os meninos, e Olókó chefia as meninas.
O pacto no portão do céu
Antes de nascer, o àbíkú passa pelo porteiro do céu, o Oníbodè Ọ̀run, e diz quanto tempo vai ficar. A data da volta é um marco da vida: ver a mãe, dar os primeiros passos, nascer o primeiro dente, o dia do casamento. O historiador iorubá Samuel Johnson registrou em 1921 a mesma crença: o àbíkú combina a hora exata de voltar, e se essa hora passa, ele «esquece a companhia» e fica.

As árvores do Egbé
Johnson conta que os àbíkú formariam uma irmandade que vive no mato, em volta e dentro das grandes árvores ìrókò. Ajíbádé cita o ìrókò e a àràbà como lugares de reunião, e é ao pé delas que se faz o ẹrù ọkọ̀ ọ̀run, o rito para desligar a criança dos companheiros do céu.
O caçador e a bananeira
Num dos itan de Ifá, um caçador escondido numa encruzilhada ouve três àbíkú combinando quando vão voltar. Ifá então manda oferecer um tronco de bananeira, que não pega fogo, para que «o fogo da casa nunca se apague»; uma cabra, cujo couro reforça o pano de carregar o bebê, para que «nunca rasgue»; e um galo. A lição é que a oferenda feita conhecendo o segredo desfaz o pacto. Quem diagnostica é o babalaô, pelo oráculo (Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus).
Nomes que pedem para ficar
Os pais davam à criança nomes que falam com ela: Málọmọ́, «não vá de novo»; Kòkúmọ́, «não morra mais»; Bánjókòó, «fique sentado comigo»; Dúrósinmí, «espere para me enterrar»; Kòsọ́kọ́, «não há enxada» para cavar a cova. Havia ainda marcas no corpo e amuletos, porque se dizia que os companheiros recusam um colega marcado.
Comida para a turma invisível
Johnson descreve festas em que se cozinha feijão com bastante dendê e se convidam outras crianças: acredita-se que a companhia invisível come junto e se acalma. Ajíbádé registra oferendas regulares ao Egbé com obì, orógbó, amendoim, cana e pimenta-da-costa. Em Oxogbô, o santuário do Egbé fica dentro do pátio do santuário de Oxum (Oxum, a orixá das águas doces).
Crença viva, e a medicina ao lado
A crença continua forte: numa pesquisa da Universidade Obafemi Awolowo com 1.695 mulheres de Ondo e Ekiti, mais da metade acreditava em àbíkú. Já em 1921, Johnson ouvia iorubás cristãos dizerem que «é doença». As duas visões convivem, e hoje boa parte dessas mortes tem explicação médica. Por isso a tradição e o cuidado de saúde andam juntos: o babalaô ou a sacerdotisa ao lado, o médico também.
No Benim, Verger viu oferendas conjuntas para àbíkú e Ibeji, com um caruru igual ao de São Cosme e Damião na Bahia (Ibeji: os orixás gêmeos, Cosme e Damião e o caruru). No Brasil, os fundamentos do Egbé são ensinados dentro do culto, por quem é iniciado.
Leia também
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
- Orunmilá, o orixá do destino
- Oxum, a orixá das águas doces
- Ibeji: os orixás gêmeos, Cosme e Damião e o caruru
Fontes
- George Olúṣọlá Ajíbádé (Obafemi Awolowo University, Ilê-Ifé) — «Àbíkú Songs in Yorùbá Land», Ntama – Journal of African Music and Popular Culture, 2005
- Samuel Johnson — The History of the Yorubas, 1921, pp. 83–84
- Peter O. Ogunjuyigbe (Obafemi Awolowo University) — «Under-five mortality in Nigeria: perception and attitudes of the Yorubas towards the existence of “Abiku”», Demographic Research, v. 11, 2004, pp. 43–56
- Pierre Verger — «A sociedade Egbé Òrun dos Abíkú, as crianças nascem para morrer várias vezes», Afro-Ásia, n. 14, 1983, pp. 138–160 (histórias de Ifá contadas por babalaôs na Nigéria)
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