Você já viu alguém com vários colares de contas coloridas no pescoço e ficou com vontade de usar um igual? Esses colares não são bijuteria. No Candomblé e na Umbanda, eles têm nome, função e história. E quem os usa normalmente os recebeu dentro de um terreiro.
Fio de contas e guia: dois nomes
No Candomblé de nação queto, o colar se chama ilequé, ou fio de contas. Segundo a pesquisadora Kate Lane, em artigo na revista Arte & Ensaios (UFRJ), o ilequé «marca a ligação» da pessoa com o orixá. O primeiro fio costuma vir logo no começo da vida no terreiro. Depois, na iniciação, chegam outros colares, e cada um «identifica» o novo iniciado.
Na Umbanda, o nome mais comum é guia. Detalhe: «guia» também é o nome dos espíritos que se manifestam na gira. O sociólogo Sulivan Charles Barros usa a palavra nos dois sentidos. Ele cita as «guias» entre os objetos do altar e descreve médiuns «tomados por seus guias». Barros registra ainda que, na Umbanda, a roupa é quase toda branca, «mas não faltam colares de todas as cores».
Do que são feitos
Os materiais variam. Lane descreve contas e miçangas, e registra que o primeiro fio usa contas «leitosas», não transparentes. Nos colares de quem tem mais tempo de iniciação entram outras peças, de louça, resina, coral, pedra ou búzio.
O colar também conta uma história de vida religiosa. Os primeiros fios são simples. Com os anos, a pessoa ganha colares mais elaborados, conforme sobe na hierarquia da casa. Lane cita o brajá, de muitas voltas, típico dos mais velhos. Um estudo de Franco Delatorre sobre Almas e Angola, religião próxima da Umbanda em Santa Catarina, mostra algo parecido: o membro recebe um colar de contas brancas no batismo e ganha novos colares a cada etapa.
As cores e os orixás
Cada orixá tem cores preferidas. Em 2024, o pesquisador Raphael Felipe da Silva de Jesus comparou dez autores sobre o Candomblé queto. A síntese dele, com as cores mais citadas, é esta:
- Exu: vermelho e preto
- Ogum: azul-escuro e verde
- Oxóssi: verde e azul
- Omolu: preto e branco
- Xangô: vermelho e branco
- Iansã: vermelho, branco e marrom
- Oxum: amarelo-ouro
- Iemanjá: azul-claro e prata
- Nanã: roxo e branco
- Oxalá: branco
O branco tem lugar especial. Para Jesus, é a cor de todos: qualquer orixá pode usá-lo.
Há também mitos sobre as cores. Num deles, registrado por Reginaldo Prandi, Xangô usava contas vermelhas e Oxalá, seu pai, remontou o colar alternando vermelho e branco.
Por que muda de casa para casa
A lista acima não é lei. O próprio Jesus avisa: não há uso «certo ou errado», só usos diferentes, e cada sacerdote tem autonomia para definir as cores.
Um exemplo é Oxóssi. Segundo Raul Lody, citado por Jesus, ele costuma vestir azul nos terreiros da Bahia e verde nos do Rio de Janeiro. Uma exposição do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR, de 2018, dá a Oxóssi o azul-turquesa e a Iansã o marrom, o vermelho e o rosa. As qualidades de cada orixá também mudam a combinação.
Por que não é enfeite
O fio de contas é dado em ritual. Ele mostra a quem a pessoa está ligada e em que ponto do caminho ela está. Lane conta que um dos colares do iniciado acompanha a pessoa a vida inteira, e só a sacerdotisa ou o sacerdote pode mexer nele. Usar um colar desses como acessório seria dizer, sem querer, algo que não é verdade.
Esses objetos também carregam uma história dura. Entre 1890 e 1946, a polícia do Rio apreendeu centenas de peças de terreiros. Por décadas, a coleção se chamou «Museu de Magia Negra». Em 2023, o IPHAN anunciou a troca do nome para «Nosso Sagrado». A pesquisadora Isis Medina lembra que guias e fios de contas estão entre essas peças.
Ao ver alguém usando
Se você vê alguém de fio de contas na rua, no trabalho ou na escola, está vendo um sinal de fé. Não puxe, não toque e não peça para experimentar. Se a curiosidade for grande, pergunte com educação. E, se quiser um colar só pela beleza, escolha um que não imite as combinações dos orixás.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- O que são os orixás: origem, Olorum e quantos existem
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- Umbanda e Candomblé: 10 diferenças que quase ninguém explica
- Oxóssi: quem é o orixá caçador, cores, dia e saudação
Fontes
- Raphael Felipe da Silva de Jesus — A cromática dos Orixás: uma análise da nomenclatura e atribuição das cores aos Orixás do Candomblé Ketu, Sacrilegens (UFJF) v.21 n.1, 2024
- Kate Lane — Odara: estética e identidade na indumentária de festa no candomblé queto, Arte & Ensaios (PPGAV/EBA/UFRJ) n.29, 2015
- Gisele Kliemann e Camila de Souza Gouveia (curadoria) — Deuses que dançam (catálogo de exposição), Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR / Ed. UFPR, 2018
- Sulivan Charles Barros — As entidades «brasileiras» da Umbanda e as faces inconfessas do Brasil, Anais de simpósio da ANPUH
- Franco Delatorre — Sessões em Casa: práticas religiosas e variação em Almas e Angola, Religião & Sociedade v.39 n.3, 2019
- Isis Saraiva Leão Medina — Entre saias e navalhas: reflexões possíveis sobre roupa, memória e axé a partir de uma epistemologia das macumbas, Revista de Ensino em Artes, Moda e Design (UDESC) v.7 n.2, 2023
- Rafael Cardoso — Acordo prevê ampliar acervo de objetos de religiões afro-brasileiras, Agência Brasil, 2023
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