Muito antes de a palavra Umbanda ficar conhecida, um culto de origem banto reunia gente à noite, nas matas do Espírito Santo. Era a Cabula. Quase tudo o que se sabe dela vem de um documento escrito por quem queria combatê-la — e, mesmo assim, ele mostra como essa tradição ajuda a entender as religiões afro-brasileiras de hoje.
A carta do bispo
Na virada para o século XX, Dom João Batista Corrêa Nery, bispo do Espírito Santo, visitou as paróquias do norte do estado e encontrou, perto de São Mateus, três freguesias tomadas pelo que chamou de «seita misteriosa». Ele descreveu o culto na carta pastoral em que se despedia da diocese, em 1900 ou 1901.
É preciso ler a carta com cuidado: Nery escrevia como bispo católico, que via o culto como desvio, e seus adjetivos são o olhar de fora. Segundo seus informantes, antes da Abolição só pessoas negras praticavam a Cabula, em segredo; depois, ela teria chegado a mais de oito mil adeptos, brancos e negros.
Como era o culto
O pesquisador Valdeli Carvalho da Costa reconstruiu, a partir da carta, o vocabulário da Cabula:
- a mesa era a reunião de culto, feita à noite na mata;
- o embanda era o chefe de cada mesa — palavra banto para sacerdote;
- o cambone era o auxiliar do embanda;
- os camanás eram os iniciados, que se reuniam em roda na engira;
- o emba era um pó de argila branca;
- o tatá era o espírito protetor — «pai», em quimbundo.
O momento central era a chegada do espírito principal, em transe. Havia também mesas com nomes de santas católicas, como Santa Bárbara e Santa Maria, sinal da mistura com o catolicismo.
A presença banto no Sudeste ajuda a entender a Cabula. Os povos de língua banto, vindos sobretudo das regiões de Angola e do Congo, foram boa parte das pessoas escravizadas trazidas para o Espírito Santo, o Rio de Janeiro e Minas Gerais — e muitas palavras da Cabula vêm do quimbundo (leia Tráfico atlântico).
A ponte para a Umbanda
Quem lê essa lista reconhece muita coisa. O cambone lembra o cambono da Umbanda; a engira, a gira; o emba, a pemba. Arthur Ramos e Roger Bastide já tinham notado as semelhanças entre a Cabula e a Macumba carioca. Costa vai além e defende uma origem banto comum e uma continuidade histórica: da Cabula à Macumba, e da Macumba à Umbanda (leia Umbanda: as linhas e as entidades e Quimbanda: o que é, de verdade).
A carta foi publicada por Nina Rodrigues e por Arthur Ramos, pioneiros dos estudos afro-brasileiros. A pesquisa de hoje critica a visão dos dois, que tratavam os cultos banto como inferiores aos nagôs — um dos motivos de a Cabula ter sido tão pouco estudada.
E hoje?
Não há estudos recentes que registrem comunidades que se chamem Cabula. Ela é conhecida sobretudo pelos documentos, e seus traços, segundo os estudiosos, sobrevivem em práticas da Umbanda e da Macumba. Por respeito, não reproduzimos aqui as cantigas registradas na carta: são material ritual, anotado por quem não era da religião (leia Dicionário banto).
Leia também
- Umbanda: as linhas e as entidades
- Quimbanda: o que é, de verdade
- Do calundu ao candomblé
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Valdeli Carvalho da Costa — «Cabula e Macumba», Síntese, n. 41, 1987
- Arthur Ramos — O Negro Brasileiro (1940)
- Ararê Calia — «A Quimbanda como fundamento», Revista Calundu (UnB), 2024






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