Entre o candomblé e a Umbanda, o Rio de Janeiro viu nascer uma tradição com identidade própria: o Omolocô. Os pesquisadores a descrevem como uma linha da Umbanda carioca com ritual ligado à nação Angola, de raiz banto (leia Dicionário banto). E ela tem um nome por trás: Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo.
Quem foi Tata Tancredo
Tancredo nasceu em Cantagalo, no interior do Rio de Janeiro, por volta de 1904, e viveu no Rio entre os sambistas do Estácio. Foi compositor — é coautor de «General da Banda», sucesso do carnaval de 1950 na voz de Blecaute — e sacerdote. O título Tata, que acompanhou seu nome, é o de sacerdote nos cultos de origem angolo-congolesa.
Nos anos 1940 e 1950, quando parte da Umbanda procurava se afastar da herança africana, Tancredo fez o contrário: defendeu que a Umbanda tinha raiz africana, Angola, e organizou o Omolocô como expressão disso. Para as pesquisadoras Joana Bahia e Farlen Nogueira, ele construiu uma identidade africana para a Umbanda, ligada à diáspora (leia Tráfico atlântico).
Livros e federações
Tata Tancredo escreveu dezenas de livros, vários com Byron Torres de Freitas, como Doutrina e Ritual de Umbanda (1951) e Fundamentos da Umbanda (1956). Também fundou entidades para organizar os terreiros e defendê-los da perseguição policial, entre elas a Federação Espírita de Umbanda, em 1950, e a Confederação Umbandista do Brasil.
O Réveillon de branco na praia
A herança mais visível de Tancredo está em todo 31 de dezembro. No começo dos anos 1950, ele estimulou os umbandistas a levar suas oferendas a Iemanjá para as praias do Rio na noite da virada (leia Iemanjá, a orixá mãe das águas). As primeiras festas, como na Bahia, aconteciam em 2 de fevereiro; depois passaram para o Réveillon. O historiador Luiz Antonio Simas chama Tancredo de «o grande estimulador» da ocupação das praias pelos umbandistas nessa noite.
As velas na areia, as flores no mar e a roupa branca — que hoje milhões de pessoas usam sem saber de onde vem — são parte dessa história. Em 1952, um editorial de jornal ainda reclamava das velas na praia. Décadas depois, a festa do povo de terreiro virou a maior festa de Ano-Novo do país.
O Omolocô hoje
Tata Tancredo faleceu em 1º de setembro de 1979, no Rio. O Omolocô continua vivo em terreiros do Rio de Janeiro e de outros estados, com cultos aos orixás, às entidades da Umbanda e aos ancestrais. Como em toda tradição de axé, o fundamento é passado dentro de cada casa, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa (leia Umbanda: as linhas e as entidades).
Leia também
- Umbanda: as linhas e as entidades
- Iemanjá, a orixá mãe das águas
- Batuque, a religião dos orixás no Rio Grande do Sul
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Joana Bahia e Farlen Nogueira — «Tem Angola na umbanda? Os usos da África pela umbanda omolocô», Revista Transversos, n. 13, 2018
- Luiz Antonio Simas — Umbandas: uma história do Brasil (Civilização Brasileira, 2021)
- Jornal GGN — «Xaxá Tancredo, sambista, compositor e patriarca do Omolokô» (2015)
- Brasil de Fato — «Réveillon no Rio: saiba a história da festa que começou com a umbanda» (2023)






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