Na Rua de São Pantaleão, no centro histórico de São Luís do Maranhão, fica uma casa de fachada simples que guarda uma das tradições religiosas africanas mais antigas do Brasil: a Casa das Minas, cujo nome ritual é Querebentã de Zomadonu. É a casa-mãe do tambor de mina jeje, a religião dos voduns no Maranhão (leia Voduns: as divindades do jeje).
Origem
A casa foi fundada em meados do século XIX por africanas vindas do antigo reino do Daomé, hoje Benim — os povos que o Brasil chamou de jeje (leia A nação jeje e sua origem e Tráfico atlântico). Pierre Verger levantou em 1952 a hipótese de que a fundadora teria sido Nã Agontimé, rainha-mãe do rei Guezo, vendida como escrava por um rival. A hipótese nunca foi provada, mas ajudaria a explicar por que a casa cultua justamente os voduns da família real daomeana.
Os voduns e as famílias
Na Casa das Minas, os voduns se organizam em famílias. A família real, Davice, é a dona da casa, e seu chefe é Zomadonu. Há também a família de Dambirá, ligada à terra e às doenças; a de Quevioçô, do trovão; e a de Savaluno. Os voduns são recebidos pelas vodunsis, as filhas da casa — na Casa das Minas, só as mulheres entram em transe.
Uma particularidade marcou a casa: as tobossis, entidades femininas e infantis, que eram recebidas pelas vodunsis mais antigas, iniciadas num rito longo e raro. Com o tempo, não houve novas iniciações desse grau, e as tobossis deixaram de vir — uma perda que as próprias mães da casa lamentavam (leia Dicionário jeje).
As mães da casa
A Casa das Minas foi sempre dirigida por mulheres. A mais lembrada é Mãe Andresa Maria, que a conduziu na primeira metade do século XX e recebeu pesquisadores como Nunes Pereira, autor do primeiro livro sobre a casa, em 1947. Depois vieram outras mães, como Mãe Deni, que viveu até 2015. O etnógrafo Sergio Ferretti conviveu por décadas com a comunidade e escreveu a obra de referência sobre ela.
Tambor de mina e patrimônio
Da Casa das Minas e de sua vizinha, a Casa de Nagô, nasceram muitos terreiros de tambor de mina no Maranhão e no Pará, que depois receberam também encantados e caboclos. A Casa das Minas foi tombada pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil.
É um templo vivo, com calendário de festas próprio. Quem visita deve respeitar as orientações da casa; os fundamentos são da comunidade.
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Fontes
- Sergio Ferretti — Querebentã de Zomadonu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão (EDUFMA, 1985)
- Manuel Nunes Pereira — A Casa das Minas: contribuição ao estudo das sobrevivências do culto dos voduns do panteão daomeano no Estado do Maranhão (1947; reedição Vozes, 1979)
- Pierre Verger — «Le culte des vodoun d’Abomey aurait-il été apporté à Saint-Louis de Maranhon par la mère du roi Ghézo?» (Les Afro-Américains, IFAN, 1952)
- Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)
Foto da capa: clecio muller frança leal — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.






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