Todo 27 de setembro, em Salvador, no Rio e em tantas outras cidades, há caruru na mesa e saquinho de doce na mão das crianças. Por trás dessa festa está um encontro antigo: o dos santos católicos Cosme e Damião com os Ibeji, os orixás gêmeos dos iorubás.
O que quer dizer Ibeji
Em iorubá, ìbejì quer dizer, literalmente, «gêmeos». Entre os iorubás, gêmeos são vistos como uma bênção cercada de cuidados. Quando um deles morre, a família manda esculpir uma pequena figura de madeira, a ère ìbejì. Essa imagem é banhada, vestida e alimentada como se fosse a criança, porque se acredita que esse cuidado protege o irmão que ficou vivo.
Taiwo, Kehinde e Idowu
Os nomes dos gêmeos seguem uma regra. O primeiro a nascer é Taiwo, «o que prova o mundo primeiro». O segundo é Kehinde, «o que chega por último». E aqui está um detalhe que surpreende: na tradição iorubá, o mais velho é Kehinde. Ele teria mandado Taiwo na frente para ver se o mundo era bom, e mandar alguém fazer um recado é coisa de quem é mais velho.
A criança que nasce depois dos gêmeos se chama Idowu, seja menino ou menina. No Brasil, esse terceiro irmão virou o Doum, que aparece ao lado de Cosme e Damião em muitas imagens populares.
Cosme, Damião e o caruru
Na tradição católica, Cosme e Damião eram irmãos médicos que curavam sem cobrar, na Síria do século III, e foram martirizados pelo Império Romano. No Brasil, a devoção a eles se juntou ao culto africano aos gêmeos: os santos ganharam rosto de criança e passaram a proteger as crianças em geral. A Igreja mudou a data para 26 de setembro, mas o povo manteve o 27.
Na Bahia, a tradição manda servir o caruru primeiro a sete crianças, numa gamela sobre uma toalha no chão. Elas comem com as mãos, e só depois comem os adultos. O antropólogo Vivaldo da Costa Lima registrou os nomes ligados a essas sete crianças: Cosme, Damião, Doum, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi. O caruru é feito de quiabo, camarão seco e azeite de dendê. Em setembro de 2024, a festa do caruru de Cosme e Damião virou patrimônio imaterial da Bahia.
Ibeji, erê e ibejada não são a mesma coisa
- No candomblé, Ibeji é orixá. Nos terreiros, o caruru é ligado a ele e a Xangô (leia Xangô, o orixá da justiça e do trovão).
- Na Umbanda, a ibejada é uma linha de entidades infantis, ao lado de caboclos, pretos-velhos e exus (leia Umbanda: as linhas e as entidades). As giras de ibejada costumam ir de 27 de setembro a 25 de outubro, dia de São Crispim e São Crispiniano.
- No candomblé, o erê não é orixá: é um estado de transe que vem depois que o orixá deixa o corpo do iniciado e antes de a pessoa voltar a si. É o erê quem dá recados, porque o orixá não fala.
Quem são os pais dos Ibeji?
Aqui as fontes não concordam, e preferimos mostrar as versões. Há quem diga que os gêmeos são filhos de Xangô e Iansã; há pesquisadores que os ligam a Oxum, pelo princípio da fecundidade; e certos mitos citam Nanã (leia Iansã, a orixá dos ventos, Oxum, a orixá das águas doces e Nanã, a orixá mais velha). A saudação, as cores e as comidas próprias de Ibeji também mudam de casa para casa: quem ensina é o sacerdote ou a sacerdotisa de cada terreiro.
Leia também
- O que são os orixás
- Xangô, o orixá da justiça e do trovão
- Umbanda: as linhas e as entidades
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Duke University, The Sacred Arts of the Black Atlantic — «Twin Figurine (Ère Ìbejì)»
- Lucas Bártolo — «Cosme e Damião: o enredo de uma cidade», Ponto Urbe (USP), n. 23, 2018
- SESC SP — «Doce lembrança dos santos gêmeos» (2011), com Vivaldo da Costa Lima e Vilson Caetano de Sousa Jr.
- Vivaldo da Costa Lima — Cosme e Damião: o culto aos santos gêmeos no Brasil e na África (Corrupio)
- Morena B. M. de Freitas — «Doces de crianças: sobre comida e ritual em giras de ibejadas», Equatorial (UFRN), v. 6, n. 11, 2019
- SBT News — «Caruru de Cosme e Damião vira patrimônio imaterial da Bahia» (27/09/2024)
Foto da capa: Wellcome Collection — Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.






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