No alto de uma ladeira do bairro da Federação, em Salvador, fica um dos terreiros mais famosos do Brasil: o Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, o Gantois. Ele ficou conhecido no país inteiro por causa de uma mulher pequena no tamanho e enorme no axé: Mãe Menininha do Gantois.
A fundação
O Gantois foi fundado em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazaré, que saiu da Casa Branca do Engenho Velho, de onde vêm muitos dos grandes terreiros ketu da Bahia (leia Casa Branca do Engenho Velho). O nome popular vem da família Gantois, de origem belga, dona das terras onde o terreiro se instalou.
No fim do século XIX, o médico Raimundo Nina Rodrigues frequentou o Gantois e escreveu sobre ele um dos primeiros estudos sobre o candomblé. O livro é marcado pelo racismo científico da época, mas registrou informações preciosas sobre a vida religiosa da casa.
Mãe Menininha
Maria Escolástica da Conceição Nazaré nasceu em Salvador em 1894, bisneta da fundadora. Ainda jovem, foi escolhida para suceder a tia-avó, Mãe Pulquéria, e assumiu a casa em 1922. Ficou à frente do Gantois por mais de sessenta anos, até morrer, em 1986.
Foi uma época em que o candomblé ainda sofria perseguição policial. Mãe Menininha conduziu a casa com firmeza e doçura, recebeu gente de todas as classes e ajudou o candomblé a ser respeitado na sociedade baiana e brasileira. Pelo Gantois passaram escritores, músicos e artistas como Jorge Amado, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia.
Em 1972, Dorival Caymmi compôs a «Oração de Mãe Menininha», gravada por Gal Costa e Maria Bethânia, que levou o nome da iyalorixá para todo o país. O terreiro mantém um memorial dedicado a ela.
Depois de Menininha
A sucessão seguiu na mesma família, como é tradição da casa: primeiro Mãe Cleusa Millet, filha de Menininha, e depois Mãe Carmen, também sua filha. No começo dos anos 2000, o Gantois foi tombado pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil, seguindo o caminho aberto pela Casa Branca.
Respeito à casa
O Gantois é uma comunidade religiosa viva. As festas públicas recebem visitantes, que devem ir de roupa clara e seguir as orientações da casa. Os fundamentos pertencem à comunidade e são ensinados por ela.
Leia também
- Casa Branca do Engenho Velho
- Do calundu ao candomblé
- Oxum, a orixá das águas doces
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Cida Nóbrega e Regina Echeverria — Mãe Menininha do Gantois: uma biografia (Corrupio/Ediouro, 2006)
- Raimundo Nina Rodrigues — O animismo fetichista dos negros baianos (1900; reedição Editora UFRJ, 2006)
- Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)
- IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: terreiros tombados
Foto da capa: Paul R. Burley — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.






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