Em iorubá, ajé quer dizer dinheiro, lucro. É também o nome da divindade da riqueza: Ajê. Ela é cultuada no culto tradicional iorubá, na Nigéria, sobretudo nos mercados. No candomblé brasileiro, quase não tem culto.
Salugá é nome de louvor
Muita gente pensa que Ajê e Ajê Salugá são duas orixás diferentes. Não são. Em 1852, o bispo iorubá Samuel Ajayi Crowther publicou o primeiro grande dicionário da língua. Nele, Ṣàlúgà aparece como «título de Ajé, o deus do dinheiro». Chamar «Ajê Salugá» é chamar a orixá pelo nome com o seu louvor.
No mesmo dicionário, Crowther registra um provérbio: Ajê muitas vezes passa reto pela primeira caravana que chega ao mercado e enche de bênçãos a última. A lição, explica ele, é que a corrida nem sempre é do mais rápido. Outro autor iorubá, o historiador Samuel Johnson, conta que Ajê estava entre as forças que acompanharam o culto de Ifá quando ele chegou a Oyó (Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus).
O mercado de Ajê, em Ifé
Em Ilê-Ifé, a cidade sagrada dos iorubás, fica o mercado Èjìgbòmẹkùn. Segundo os pesquisadores nigerianos Abiodun Ajayi e Olusegun Faturoti, que ouviram chefes e comerciantes da cidade, o santuário de Ajê está ali «desde tempos imemoriais», ao pé de uma árvore. O mercado também se chama Ọjà Ajé, o mercado de Ajê. Os autores registram uma fórmula: «Ajé ló bí Ọjà», «Ajê gerou o mercado». Para eles, Ajê e mercado são inseparáveis.
Pela tradição oral de Ifé, Ajê desceu do céu junto com Ọ̀rànfẹ̀ e escolheu morar ali. Ajê, Ọ̀rànfẹ̀ e Oxum eram amigos e fundaram juntos o mercado. Sobre Oxum, leia Oxum, a orixá das águas doces.

Os búzios, a moeda de Ajê
Ainda segundo Ajayi e Faturoti, o mercado de Ifé teria sido o primeiro lugar onde os búzios serviram de dinheiro, porque o búzio é o símbolo de honra de Ajê. Em Ondo há outra história, contada pelos historiadores nigerianos Toyin Falola e Akanmu Adebayo. O povo consultou Olodumarê e foi mandado a Ajê. Um urubu foi buscar os búzios com ela e os engoliu para não perdê-los no caminho.
Segunda-feira, dia de Ajê
Em Ifé, o dia de mercado foi fixado em homenagem a ela. Hoje a feira grande cai na segunda-feira, ọjọ́ Ajé, o dia de Ajê. Na festa Olójó, o mercado fecha e o Ooni, rei de Ifé, vai rezar no santuário de Ajê. Há também uma festa própria de Ajê em março, com a presença do rei. O Ooni atual mandou cobrir o santuário e pediu que as árvores sagradas fossem preservadas.
As mulheres de Ajê
O mercado iorubá é, sobretudo, das mulheres, e o culto de Ajê também. O professor nigeriano Jacob Olupona descreve as chefes de Ondo honrando Ajê na abertura de um mercado novo. Cada uma expõe diante do palácio o seu igbá Ajé, uma grande tigela de latão. Em Ibadan, quem recusa uma oferta diz ao vendedor «Ajé óò wá», «Ajê virá»: é um jeito educado de desejar lucro. No mercado de peixe de Epe, em Lagos, uma Ìyá Alájé cuida dos santuários, e as vendedoras respondem às rezas dela gritando «ajé».
Ajê não é Ìyámi
Cuidado com uma confusão comum. Ajé, o dinheiro, é uma palavra. Àjẹ́, com outro tom, é o poder das mães ancestrais, as Ìyámi. Crowther já separava as duas em 1852. Sobre elas, leia Iyami Oxorongá, a sagrada divindade feminina.
E no Brasil?
Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, Ajê Xalugá aparece entre os filhos de Iemanjá. Essa lista vem de um livro do oficial britânico A. B. Ellis, de 1894. Poucos anos depois, R. E. Dennett contou que seus informantes iorubás não a confirmavam. A tradição de Ifé não dá pais a Ajê. Os estudos nigerianos a tratam como deusa; registros antigos falam em «deus». Também pouco se sabe, com fonte, sobre cores, dia de oferenda ou saudação no Brasil: isso varia de casa para casa. Sobre o mar e Iemanjá, leia Olokun, o fundo do mar.
Cultuar Ajê não é fórmula para ficar rico. Na tradição, a riqueza nasce do mercado, do trabalho e da boa conduta, e o caminho de cada um conta. O fundamento é ensinado dentro do culto, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Olokun, o fundo do mar
- Oxum, a orixá das águas doces
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
- Oduduwa, a cabaça da criação
- Iyami Oxorongá, a sagrada divindade feminina
Fontes
- Abiodun Ajayi e Olusegun Rotimi Faturoti (Adeyemi College of Education, Ondo) — «Èjìgbòmẹkùn Market in Ilé-Ifẹ̀: Investigating the Nexus between the Mythical and Modern era of the Yorùbá History», Yoruba Studies Review, v. 5, n. 1.2, 2020, pp. 223–240
- Samuel Ajayi Crowther — A Vocabulary of the Yoruba Language, Londres, 1852 (verbetes «Aje» e «Saluga»)
- Samuel Johnson — The History of the Yorubas, Lagos, CMS, 1921, p. 159
- Sarah Jenise Mathews — Ajé & Àjé: Gender and Female Power in Yorùbáland, dissertação de mestrado, UCLA, 2014, pp. 13–20 (cita Jacob K. Olupona, «Yorùbá Goddesses and Sovereignty in Southwestern Nigeria», 2000, e Toyin Falola e Akanmu Adebayo, Culture, Politics & Money Among the Yoruba, 2000)
- Emmanuel Akinwotu — reportagem sobre o mercado de peixe de Epe (Lagos), The Guardian, 26/10/2021
- R. E. Dennett — Nigerian Studies, Londres, 1910, pp. 101–102 (sobre a lista de A. B. Ellis, 1894)
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