Olokun é a dona do mar, o òkun dos iorubás. Para quem a cultua, o mar é ao mesmo tempo a água e a própria orixá, e o movimento das ondas é a presença dela. Olokun é cultuada no culto tradicional iorubá, em Ilê-Ifé, em Lagos e entre os ilajes da costa, e também no reino de Benim. No candomblé brasileiro, quase não tem culto.
A rainha das águas
Num verso de Ifá do odu Òtúá Méjì, publicado pelo professor nigeriano Wande Abimbola, as águas mansas e as bravas são mandadas se curvar diante dela, porque «Òkun layaba omi»: o mar é a rainha das águas. Logo abaixo dela vem Olossá, a dona da laguna.
A esposa de Odùduwà que virou mar
Em Ilê-Ifé se conta que Olokun era uma mulher bonita e muito rica, esposa de Odùduwà, o fundador da cidade. Humilhada pela outra esposa, foi embora levando o que pôde e se transformou na água chamada òkun. O próprio palácio do Ooni de Ifé repete essa história, e uma versão contada lá, publicada pela imprensa nigeriana, diz que a rival também virou água: a lagoa de Lagos, morada de Olossá (em iorubá, ọ̀sà quer dizer lagoa). Sobre Odùduwà, leia Oduduwa, a cabaça da criação.
Já no mar, Olokun sentiu falta de Ifé e mandou chamar Orunmilá. Segundo uma tradição registrada por Adepegba, ele viveu vinte anos com ela e se tornou o seu adivinho: Olokun só concede riqueza depois que Ifá confirma. Sobre Orunmilá, leia Orunmilá, o orixá do destino; sobre o oráculo, Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus.

Mulher ou homem?
Entre os iorubás, Olokun é sobretudo feminina: o teólogo nigeriano Bolaji Idowu a chama de «deusa do mar». Mas há histórias de Ifá, contadas pelo babalaô Yemi Elebuibon, de Oxogbô, em que Olokun é masculino. No reino de Benim, segundo as pesquisadoras Paula Ben-Amos e Flora Kaplan, Olokun é filho de Osanobua, o deus criador, e rei das grandes águas: os rios são suas esposas, e o rei de Benim é a contraparte dele na terra.
Riqueza, saúde e filhos
O que se pede a Olokun é riqueza, saúde, prosperidade e filhos. Em Benim, são sobretudo as mulheres que a cultuam, enfeitadas de contas, com danças e cantos, em santuários muito decorados. Em Lagos, o chefe Oniru fazia uma festa anual para Olokun, para que o mar não invadisse a orla.
O bosque de Olokun em Ifé
Em Ilê-Ifé existe o bosque sagrado de Olokun, o Igbo Olókun. Dele saiu, em 1910, a famosa cabeça de bronze chamada Orí-Olókun, hoje símbolo da Universidade Obafemi Awolowo. No mesmo bosque, o arqueólogo nigeriano Abidemi Babalola e sua equipe encontraram uma oficina de contas de vidro, sobretudo azuis, feitas entre os anos 1100 e 1500, com material da própria região: o vidro já se fabricava ali séculos antes da chegada dos europeus. Até hoje, o Ooni de Ifé faz orações a Olokun numa festa anual.
Olokun e Iemanjá
Na Nigéria, as duas são divindades diferentes: Olokun é o mar, e Iemanjá é a orixá do rio Ògùn, em Abeokutá. O estudioso nigeriano Omosade Awolalu lista Olokun, Iemanjá, Oxum e Olossá como espíritos das águas distintos. Sobre Iemanjá, leia Iemanjá, a orixá mãe das águas.
No Brasil, Pierre Verger registrou uma história em que Olokun é a mãe de Iemanjá, e nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi há até a versão contrária. São registros feitos a partir do Brasil; não aparecem nas fontes iorubás que consultamos. Também é de um britânico, de 1894, e não iorubá, o relato em que Obatalá prende a fúria do mar com correntes de ferro.
Cuba e Brasil
Na santeria cubana, explica o pesquisador Roberto Garcés Marrero, Olokun não se «assenta» na cabeça do iniciado. No Brasil, quase não tem filhos de santo nem cantigas no xirê. Para Pai Rodney, sacerdote de candomblé, quem conhecia o culto provavelmente não sobreviveu à travessia (Tráfico atlântico: de onde vieram os povos do axé). Iemanjá ficou com o mar, e o fundo do oceano ficou do outro lado do Atlântico. Saudação, dia e oferendas variam, e o fundamento é ensinado dentro do culto, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Iemanjá, a orixá mãe das águas
- Oduduwa, a cabaça da criação
- Orunmilá, o orixá do destino
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
- Tráfico atlântico: de onde vieram os povos do axé
Fontes
- Kehinde Adepegba (Lagos State University of Science and Technology) — «Olókun Mythology and Socio-Aestheticism of Orí-Olókun», The Nigerian Field, n. 89, 2024, pp. 29–41 (com versos de Ifá do odu Òtúá Méjì publicados por Wande Abimbola, 1977, e citações de E. Bolaji Idowu, J. Omosade Awolalu e Yemi Elebuibon)
- Paula Ben-Amos e Flora Edouwaye S. Kaplan — verbete «Edo Religion», Encyclopedia of Religion
- Abidemi Babatunde Babalola, Susan K. McIntosh, Laure Dussubieux e Thilo Rehren — «Ile-Ife and Igbo Olokun in the history of glass in West Africa», Antiquity, v. 91, n. 357, 2017, pp. 732–750
- Flavio José de Paula e Paulo Fernando Carneiro de Andrade — «Iemanjá, da África para o Brasil: mitologia e identidade», Numen (UFJF), v. 26, n. 2, 2023, pp. 234–235 (registros de Pierre Verger e Reginaldo Prandi)
- Roberto Garcés Marrero — «Yewá, la reina del cementerio en la santería cubana», Revista M. (UNIRIO), v. 8, n. 15, 2023, nota 1
- Pai Rodney — «Iemanjá é negra», CartaCapital, 02/02/2018
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