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Sabores e Saberes abre Novembro Negro da Fundação Cultural Palmares com celebração da culinária afro-brasileira como patrimônio cultural

Sabores e Saberes abre Novembro Negro da Fundação Cultural Palmares com celebração da culinária afro-brasileira como patrimônio

Texto: Fundação Cultural Palmares — publicado originalmente em gov.br em 05/11/2026, reproduzido na íntegra sob a licença CC BY-ND 3.0.
Imagem: Fundação Cultural Palmares

A cozinha também é lugar de memória, conhecimento, resistência e continuidade. Foi a partir dessa compreensão que a Fundação Cultural Palmares (FCP) abriu, na quarta-feira, 4 de novembro, sua programação do Novembro Negro 2026 com a culminância da segunda edição do projeto Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana. Realizado no Espaço Mário Gusmão, na sede da Fundação, em Brasília, o encontro reuniu lideranças de comunidades tradicionais de matriz africana, representantes de instituições, cozinheiras, mestras, participantes das vivências formativas e público interessado na cultura alimentar afro-brasileira.

O projeto tem como finalidade contribuir para a salvaguarda da culinária afro-brasileira como patrimônio cultural, reconhecendo e valorizando os conhecimentos, as práticas e os modos de fazer preservados e transmitidos pelas comunidades tradicionais. A iniciativa também busca fortalecer esses saberes como expressões de identidade, organização comunitária, geração de renda e continuidade cultural nos territórios.

A programação começou na área externa da Fundação, com os Tambores de Angola, conduzidos pela comunidade tradicional Tumba Inzo A’na Nzambi Junsara, com Tata Nguzentala e os Tatas Kambonos Roxi Kongo, Tata Mbilautala e Tata Nkosi Ngongo. A apresentação foi acompanhada por uma roda tradicional, liderada por Tata Luazi Luango e Yalorixá Jussara, e reuniu lideranças e participantes antes da entrada no Espaço Mário Gusmão.

Na abertura institucional, a diretora substituta do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro (DPA) da FCP, Cida Santos, destacou a relação do projeto com a missão da Fundação de promover e valorizar a cultura afro-brasileira. Ela lembrou que a iniciativa chega à segunda edição e recuperou a experiência da edição anterior, também voltada à valorização da culinária de terreiro e realizada em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. Na ocasião, foram premiadas receitas de comunidades tradicionais de matriz africana, entregues kits de cozinha e promovida uma mostra gastronômica na Casa Niemeyer. Para Cida, experiências dessa natureza demonstram o alcance das políticas de valorização dos saberes tradicionais e a possibilidade de ampliar sua continuidade.

O presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, trouxe uma lembrança pessoal para abordar a relação entre alimentação, ancestralidade e identidade. Filho de um cozinheiro negro que trabalhou em importantes hotéis de Salvador, ele falou sobre a influência do pai em sua formação e sobre os espaços de alimentação como lugares de convivência, troca e construção cultural. Também chamou atenção para o papel das mulheres na preservação e na transmissão dos conhecimentos culinários, reconhecendo a cozinha como uma tecnologia construída ao longo de gerações.

A presidenta do Instituto Lente Cultural, Carol Peres, ressaltou a força da cultura popular na construção da identidade brasileira e na elaboração de futuros coletivos. Ao agradecer às comunidades, às instituições parceiras e às equipes envolvidas, destacou que a transmissão dos saberes e a valorização da ancestralidade dependem de trabalho compartilhado e de iniciativas que mantenham esses conhecimentos em movimento.

Na sequência, Tata Luazi Luango, presidente do Instituto Kitanda Cultura de Terreiro, apresentou a concepção da edição 2026. Em sua fala, destacou que o projeto não se limita ao ensino de receitas ou à realização de oficinas culinárias. A proposta parte dos conhecimentos que já existem nos territórios e reconhece as cozinhas tradicionais como espaços de produção de saúde, soberania e segurança alimentar, geração de renda e preservação do patrimônio cultural.

Tata Luazi também relacionou o conceito desta edição ao tabuleiro da baiana, compreendido como uma tecnologia histórica de trabalho, autonomia e organização econômica de mulheres negras. Para ele, as cozinhas de terreiro são documentos vivos da história do país e espaços fundamentais de proteção da memória. Ao mencionar as vivências realizadas em Planaltina, no Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga, e em Novo Gama, na Casa de Oyá, defendeu a continuidade do projeto e sua ampliação para outros territórios.

Formação, políticas públicas e saberes dos territórios

A edição de 2026 desenvolveu vivências formativas em dois polos do Distrito Federal e Entorno. As atividades reuniram oficinas teóricas e práticas conduzidas por mestras e facilitadoras de terreiro, com conteúdos relacionados à culinária tradicional, às cozinhas comunitárias, à sustentabilidade e à valorização dos saberes afro-brasileiros. Mais de 100 pessoas participaram do processo formativo.

Durante o encontro, foram reconhecidas Mãe Maria do Cerrado, gestora da vivência do Polo I, realizado no Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga, em Planaltina, e Yalorixá Jussara de Oyá, responsável pela vivência do Polo II, na Casa de Oyá, em Novo Gama. Também foram reconhecidas as oficineiras Bruna Crioula, Ekedji Cleide Morais e Muzenza Imoxikongo. A programação incluiu ainda a exibição de um registro audiovisual da edição anterior do projeto.

O debate sobre “Culturas Alimentares e as Políticas Públicas” contou com a participação de Jéssica Leite, chefe da Assessoria de Participação Social e Diversidade do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS); Guilherme Bruno dos Santos, coordenador-geral do Centro de Informação e Acervo da Memória e da Cultura Afro-Brasileira (CIAM), da Fundação Cultural Palmares; e Muzenza Imoxikongo, agroecóloga e conselheira titular do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Distrito Federal (CONSEA-DF). A mediação foi conduzida por Tata Luazi Luango, presidente do Instituto Kitanda Cultura de Terreiro, gestor cultural e pesquisador de culturas tradicionais e populares.

A conversa aproximou os conhecimentos produzidos nos territórios do debate sobre políticas públicas, reforçando a importância de reconhecer as práticas alimentares tradicionais como parte do patrimônio cultural e das estratégias de fortalecimento das comunidades.

A cozinha como patrimônio vivo

Um dos momentos da tarde foi a aula-performance conduzida pela chef de cozinha e Makota Solange Borges, idealizadora do projeto Culinária de Terreiro e do Festival do Dendê. Com mediação de Bruna Crioula, a atividade reuniu preparo, apresentação de conhecimentos e conversa sobre a culinária de terreiro. Na ocasião, Solange também apresentou o livro Festival do Dendê, publicação relacionada à iniciativa que busca contribuir para a aquisição de território por uma comunidade tradicional. Bruna Crioula, por sua vez, compartilhou aspectos de sua trajetória e de seu trabalho com alimentação ancestral e apresentou o livro Comida Contracolonial.

A partilha dos alimentos marcou a etapa seguinte. Os participantes dos dois polos apresentaram seus tabuleiros e o público pôde conhecer e experimentar preparações da culinária tradicional. Entre elas, esteve o Makudiá de Terreiro, preparado pela comunidade Inzo Ngunzu Tubiá Diulo. O momento reafirmou uma dimensão central do projeto: a comida como expressão de conhecimento, identidade, cuidado e partilha comunitária.

O encerramento ficou por conta das Sambadeiras de Roda – Manzu Kalla Muísu, que levaram o samba de roda ao Espaço Mário Gusmão e convidaram o público a participar da celebração.

Novembro Negro 2026

Com o tema “Herança Africana: Território, Memória, Cultura e Ancestralidade”, o Novembro Negro da Fundação Cultural Palmares reúne atividades ao longo de novembro e início de dezembro, em diferentes regiões do país. A programação contempla Brasília, São Paulo, Alagoas, Rio de Janeiro, Pernambuco e Salvador, articulando ações culturais, encontros, manifestações artísticas e iniciativas de valorização da história e da produção cultural afro-brasileira.

Ao abrir a agenda com o Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana, a Fundação destaca a importância de reconhecer os conhecimentos preservados e transmitidos pelas comunidades tradicionais. Mais do que apresentar pratos e receitas, o projeto evidencia a força das mulheres e dos territórios na construção de práticas culturais que atravessam gerações e seguem contribuindo para a identidade brasileira.

A edição de 2026 é realizada pelo Instituto Lente Cultural e pelo Instituto Kitanda Cultura de Terreiro, com apoio da Federação Uirapuru, da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

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