Chapéu de couro, laço na mão, chicote estalando e um brado que enche o terreiro: «Ê boi!». O Boiadeiro é o vaqueiro do sertão que desce nas giras de Umbanda. As outras linhas e entidades da religião estão em Umbanda: as linhas e as entidades; aqui a conversa é sobre ele.
Quem é o Boiadeiro
O pesquisador Fernando Guerra, que acompanhou uma tenda de Umbanda em Sepetiba, no Rio de Janeiro, descreve o Boiadeiro como uma entidade relativamente nova. Vaqueiros, tropeiros e homens do campo, os boiadeiros lembram o sertanejo e o mestiço brasileiro. Segundo a pesquisadora Maria Helena Villas Boas Concone, citada por ele, o Boiadeiro é sisudo, bravo e sério: postura ereta, cara fechada, pouca conversa. Dança os pontos fazendo o gesto de jogar um laço e chama o gado.
Veio do catimbó, com quem veio do Nordeste
O dirigente da tenda estudada resumiu a origem assim: «O Boiadeiro é ligado ao Catimbó. O Boiadeiro começou a ser cultuado no Nordeste. Ele veio pra cá, trazido por gente vinda de lá.» No catimbó, os mestres da jurema podem se manifestar como boiadeiros, vaqueiros e cangaceiros. Guerra liga essa chegada à migração nordestina para o Rio a partir dos anos 1950, sobretudo da Paraíba e de Pernambuco. Sobre os mestres e a jurema, leia Jurema Sagrada: os mestres e o catimbó do Nordeste.
Nem caboclo, nem exu
Muitos autores colocam o Boiadeiro numa linha mista, entre a direita e a esquerda da Umbanda, junto com baianos e marinheiros. Na tenda de Sepetiba, até o lugar dos objetos dele mostra isso: nem no altar, perto dos caboclos, nem na entrada, onde fica a casa de Exu, mas no meio. «Ele não é exu e ele não chega a ser um caboclo», explicou o dirigente.
O trabalho dele é limpar
O Boiadeiro não vem dar conselho nem passe. Ele é chamado quando a carga do ambiente pesa. Os cambonos trazem chapéus, chicotes e laços, o atabaque acelera e os boiadeiros chegam juntos, num só ponto. Na gira descrita por Guerra, um deles laçou o ar nos quatro cantos do terreiro, juntou tudo no centro e arrastou para fora. «O boiadeiro não transporta o gado? O boiadeiro na Umbanda transporta as coisas ruins. Ele limpa, ele carrega.»
Comida de tropeiro
As oferendas lembram a mesa do interior: farofa e arroz com charque, carne de sol, feijão tropeiro, baião de dois, macaxeira, farinha com leite e frutas do cerrado, como pequi e jatobá. Na casa estudada, a oferenda vai para um descampado, um pasto ou uma porteira.
Caboclos boiadeiros no Candomblé de Angola
O Boiadeiro não está só na Umbanda. Carlos Vinícius Silva, iniciado no Candomblé de Angola em Belo Horizonte, conta que muitas casas Angola fazem no 7 de setembro a festa dos caboclos e boiadeiros, que ele vê como uma mesma família, os caboclos boiadeiros. Para ele, os povos bantos, levados para fazendas e para a lida do gado, ajudam a explicar essa presença.
Os nomes, os pontos e o jeito de cada Boiadeiro mudam de casa para casa. O fundamento é ensinado dentro de cada terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Cantigas de Boiadeiro
Assista a uma das cantigas de Boiadeiro no canal do Portal Afroxé:
Leia também
- Umbanda: as linhas e as entidades
- Jurema Sagrada: os mestres e o catimbó do Nordeste
- Incorporação na Umbanda
Fontes
- Fernando Guerra — «Tem sertanejo na Umbanda de boiadeiro: inserção, ressignificação e adaptabilidade de novas entidades ao panteão umbandista», Revista Três Pontos (UFMG), v. 11, n. 1, 2014
- Carlos Vinícius Silva — «Caboclos e boiadeiros no candomblé: minha visão», Revista Calundu (UnB), v. 6, n. 1, 2022






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