Oxaguiã é o Oxalá jovem, de espada e escudo, mas o objeto que mais conta a história dele é outro: o pilão. Quem é Oxaguiã, suas cores e sua saudação estão em Oxaguiã: quem é o Oxalá jovem e guerreiro. Aqui a conversa é sobre o pilão, o inhame e as festas que ligam a Nigéria ao Brasil.
Um nome, duas leituras
Na tradição afro-brasileira, o nome de Oxaguiã costuma ser lido como «o orixá que come inhame pilado», o iyán dos iorubás. Há também quem leia Ògìyán como forma curta de um nome mais antigo, e veja o elo com o inhame como explicação popular. As duas leituras convivem, e nenhuma apaga a força do inhame no culto.
O inventor do pilão
O sociólogo Reginaldo Prandi conta que Oxaguiã inventou o pilão para preparar o inhame, a comida de que mais gostava, e por isso é visto como o criador da cultura material: o orixá que transforma o que a terra dá em alimento. Nos terreiros, o assentamento dele costuma levar um pequeno pilão de prata ou de estanho, e entre as suas comidas estão o inhame pilado e a canjica.
A seca de sete anos e o inhame novo
O sacerdote Agenor Miranda Rocha registrou uma história da sua tradição. O mundo atravessava sete anos de seca: as árvores não davam fruto e a chuva não molhava a terra. Oxaguiã lembrou que a festa do inhame novo tinha deixado de ser feita. Quando a colheita voltou farta, ele mandou cozinhar e pilar o inhame, oferecer primeiro a Oxalá e depois repartir com todos. Alimentado, Oxalá voltou a alimentar o mundo. É essa a origem contada para a festa do «Pilão de Oxaguiã».
Ejigbô: a festa que continua na Nigéria
Ejigbô, a cidade de que Oxaguiã é rei, fica no estado de Osun, na Nigéria, e ainda celebra a festa de Òrìṣà Ògìyán no começo da colheita do inhame novo. Em 2017, um jornal local descreveu uma vigília de Ifá com sacerdotes de branco, inhame novo pilado servido ao orixá e o Ewo: uma disputa ritual com varas entre os bairros de Isale Osolo e Oke Mapo.
No Brasil, a lenda de Oxaguiã também fala de um babalaô ofendido, de uma longa seca e de uma luta de varas entre dois bairros com esses mesmos nomes. A história atravessou o oceano e segue viva dos dois lados.
A festa do pilão no candomblé
Em muitas casas, o ciclo das Águas de Oxalá tem um dia dedicado aos inhames. O antropólogo Vilson Caetano de Sousa Júnior descreve que, no 16º dia, os passos lentos dão lugar a passos rápidos e o toque compassado vira toque de guerra: é Oxaguiã chegando. Olga Cacciatore registrou a festa dos inhames novos, também chamada de «Pilão de Oxalá»:
- tudo é branco, sem dendê;
- o milho e o inhame são socados no pilão;
- o banquete é repartido entre todos, como na colheita africana.
A data e a ordem dessa festa variam de casa para casa, e cada terreiro guarda o seu fundamento, ensinado pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
A cantiga de Oxaguiã
Na cantiga «A jagun ná Bàbá o», Oxaguiã é saudado como o primeiro de todos os guerreiros e como sacerdote supremo. Assista com a letra e a tradução na tela:
Leia também
- Oxaguiã: quem é o Oxalá jovem e guerreiro
- Oxalá, o orixá da criação
- Ajalá, o oleiro que molda o ori
- Ori, a cabeça como orixá pessoal
Fontes
- Reginaldo Prandi — «Deuses africanos no Brasil», em Herdeiras do axé (Hucitec, 1997)
- Tesauro de Mitologia Iorubá (UFRGS) — «Oxaguiã»
- F. L. Rocha e D. O. Silva — «O inhame dos Palmares é o inhame do candomblé», Cadernos Zygmunt Bauman (UFMA), v. 12, n. 30, 2022 (traz Vilson Caetano de Sousa Jr., Olga Cacciatore e Agenor Miranda Rocha)
- K. Ayantunji — «Ogiyan Festival: The Celebration Of The Good, The Bad And The Ugly Of Ejigbo Ancestors», Osun Defender (07/10/2017)
Foto da capa: Hamzabash — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.






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