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Terreiro também cuida: a rede que une casas de axé e saúde pública

Estetoscópio sobre uma mesa clara

Quando se fala em terreiro, muita gente pensa só em festa e ritual. Mas as casas de axé também acolhem quem está sofrendo: escutam, aconselham, orientam. Desde 2003, uma rede nacional transforma esse cuidado numa ponte com o Sistema Único de Saúde, o SUS. É a Renafro, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.

A rede não diz que o terreiro substitui o médico. O terreiro acolhe e caminha ao lado do serviço de saúde.

Como a rede nasceu

A rede foi criada em março de 2003, durante o II Seminário Nacional Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, em São Luís (MA). Quem conta é o dentista José Marmo da Silva, que foi secretário-executivo dela, num artigo de 2007 na revista Saúde e Sociedade, da USP.

Antes disso houve um projeto-semente, o Ató-Irê, de 2001 a 2004, no Maranhão e no Rio de Janeiro, com apoio da Fundação Ford. O sociólogo Lucas Maciel Ferreira, da UFSC, entrevistou Baba Diba, coordenador-geral da Renafro, para quem tudo começou com a prevenção da aids. Segundo ele, havia autoridades que desconfiavam que os rituais espalhassem doenças, e «nunca houve nenhuma contaminação desse tipo». O projeto virou uma caravana de terreiro em terreiro, falando de prevenção.

As versões sobre o berço variam. Numa entrevista de 2022 à Revista Calundu, da UnB, Mãe Baiana, coordenadora do núcleo do Distrito Federal, diz que a Renafro «nasce no Rio de Janeiro». Já o seminário que fundou a rede, segundo Marmo e Ferreira, foi em São Luís.

Quem participa

Segundo Marmo, a Renafro reúne adeptos das religiões afro-brasileiras, gestores e profissionais de saúde, integrantes de ONGs, pesquisadores e lideranças do movimento negro. Em 2007, eram mais de 300 organizações, em 23 núcleos pelo país. Cada núcleo era coordenado por um sacerdote ou sacerdotisa, com apoio de profissionais de saúde e de educação iniciados ou simpatizantes.

O que ela faz

Os objetivos listados por Marmo incluem lutar pelo direito humano à saúde, valorizar o saber dos terreiros, combater o racismo e a intolerância e abrir um canal entre o povo de terreiro e os profissionais de saúde.

Na prática:

  • materiais educativos na linguagem dos terreiros (vídeos, livros, folhetos);
  • capacitações, para as lideranças entenderem como o SUS funciona e participarem dos conselhos de saúde;
  • seminários para mostrar a gestores como o racismo e a intolerância afetam a saúde.

O caminho não foi fácil. Marmo relata que equipes do Programa Saúde da Família tinham medo de entrar nos terreiros. Médicos, por sua vez, reclamavam que alguns adeptos não seguiam as orientações do tratamento. As capacitações serviram para pôr os dois lados para conversar.

Na pandemia de covid-19, conta Mãe Baiana, as casas do Centro-Oeste fecharam e passaram a atender à distância. Sobre a vacina, ela diz que os terreiros ajudaram «incentivando e orientando a todos, conforme orientações científicas».

A ponte com a política pública

Em 2009, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, pela Portaria nº 992. Uma das diretrizes é o reconhecimento dos «saberes e práticas populares de saúde, incluindo aqueles preservados pelas religiões de matrizes africanas». O plano operativo de 2017 fala ainda em fortalecer o acesso de quilombolas e terreiros à atenção básica.

Segundo Marmo e Ferreira, a Renafro ajudou a construir essa política, aprovada antes pelo Conselho Nacional de Saúde, em 2006. Em 2008, a rede ganhou assento numa comissão do Conselho sobre a saúde da população negra. Em 2024, foi uma das promotoras da pesquisa «Respeite o Meu Terreiro», sobre intolerância religiosa, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos.

Cuidar dos dois lados

Para muitas casas, o corpo é morada do sagrado e por isso merece cuidado. Uma tese da Fiocruz, de Márcio de Mello, descreve terreiros do Rio de Janeiro como lugares de acolhimento para quem os procura.

Makota Valdina, liderança do candomblé angola citada por Marmo, reconhece que «muitas doenças precisam ser tratadas pela medicina dos cientistas». Quem é de axé, diz ela, busca a cura «dos dois lados». É essa a ideia da rede: o terreiro escuta e acolhe, o serviço de saúde diagnostica e trata. Um não ocupa o lugar do outro.

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

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