Numa festa de candomblé, enquanto o orixá dança no barracão, há sempre uma mulher por perto, atenta a cada gesto: ajeita a roupa, enxuga o suor, conduz a dança. Ela é a ekede, e o seu cargo é um dos mais respeitados da casa.
Quem é a ekede
Ekede, que também se escreve ekedi ou equede, é um cargo só de mulheres, dado a quem não entra em transe, ou seja, não incorpora o orixá. A palavra é ligada ao iorubá èkéjì, «a segunda», aquela que está ao lado. No candomblé angola, o cargo equivalente é o da makota, e os homens com função parecida são os tatas.
A União Nacional das Ekedes reúne mulheres de cargos semelhantes em várias tradições: ekedis, makotas, kotas, ajoiês, iarobás, cambonas e sambas. São nomes diferentes, usados em casas diferentes, para mulheres que cuidam sem entrar em transe.
O que ela faz
A função central da ekede é cuidar:
- zelar pelo orixá em terra e pela pessoa em transe;
- vestir os orixás e conferir roupas e insígnias;
- conduzir o orixá no barracão;
- acolher quem chega e ajudar a ialorixá ou o babalorixá nas festas.
É ela quem enxuga o suor de quem está em transe e, no fim, ajuda a pessoa a voltar a si. Por isso a ekede é chamada de «mãe» na casa, mesmo quando é muito jovem. A Equede Sinha, da Casa Branca do Engenho Velho, diz que é equede de todos os orixás, de Exu a Oxalá, e não só do orixá que a escolheu (leia Casa Branca do Engenho Velho).
Como é escolhida
A ekede não se candidata: ela é escolhida pelo sagrado. O caminho tem três etapas:
- apontamento: o orixá, em transe, aponta a mulher;
- suspensão: ela é erguida numa cadeira, ou nos braços das mais velhas, e apresentada à comunidade;
- confirmação: a cerimônia em que é sentada em sua cadeira, diante de todos.
Ekedes e ogãs confirmados não passam pelo caminho do iaô. Ao serem confirmados, já são tratados como mais velhos, e por isso se diz que eles «nascem prontos» (leia Como funciona um terreiro: abiã, iaô e ebômi). A ekede é o par feminino do ogã, o cargo masculino de quem também não entra em transe, e os dois estão no círculo mais alto do segredo da casa.
Um cuidado com os nomes
Na internet, é comum ver a palavra vodunsi como se fosse a ekede do candomblé jeje. Não é. Segundo Reginaldo Prandi, as vodunsis são as dançantes que incorporam os voduns, o oposto da ekede (leia Voduns: as divindades do candomblé jeje). Já o nome do cargo da ekede no jeje varia nas fontes, e preferimos não cravar um.
A mãe que nunca dorme
Em entrevista à pesquisadora Isadora Souza da Silva, a Makota Henda Mianga resumiu o cargo numa frase: «Ser Kota é ser a mãe que nunca dorme.» Os fundamentos de cada função são ensinados dentro de cada casa, pela sacerdotisa ou pelo sacerdote.
Leia também
- Como funciona um terreiro: abiã, iaô e ebômi
- O que são os orixás
- Casa Branca do Engenho Velho
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Isadora Souza da Silva — Pelas mãos das Ekedis e Makotas: o poder matriarcal nos processos educacionais nos candomblés, tese (UERJ, 2023)
- Eduardo Bonine — «Iaôs e equedes: quem são essas mulheres?», Revista Identidade! (Faculdades EST), 2020
- Aymê Okasaki — «Os Axós do Axé Ilê Obá: trajes do candomblé paulista», Afros & Amazônicos (UNIR), 2024
- Reginaldo Prandi — «Nas pegadas dos voduns: um terreiro de tambor-de-mina em São Paulo» (2005)
Foto da capa: Tatiana Azeviche / Setur-BA — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0.






Deixe um comentário