Em julho de 1938, uma equipe vinda de São Paulo gravou, num terreiro de Belém, os tambores e os cânticos de um culto que os de fora chamavam de Babaçuê (ou Babassuê). Os próprios fiéis tinham outro nome para ele: Batuque de Santa Bárbara. Aquelas gravações são hoje um dos registros mais antigos das religiões afro-brasileiras da Amazônia.
De onde vem o nome
Quem explicou foi o próprio sacerdote da casa, Satiro Ferreira de Barros: «Babaçuê» é uma contração de Barba Soeira, nome nagô de Santa Bárbara. Barba Soeira é uma encantada da Mina, da família dos nobres, cultuada no Maranhão e no Pará, festejada em 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, e ligada também a Iansã. Ela aparece com muitos nomes: Barba Sueira, Barbassuera, Rainha Barba, Maria Bárbara.
A Missão de 1938
A Missão de Pesquisas Folclóricas, criada por Mário de Andrade no Departamento de Cultura de São Paulo, percorreu o Norte e o Nordeste entre fevereiro e julho de 1938, chefiada por Luís Saia. Em Belém, nos dias 5 e 6 de julho, gravou o culto da casa de Satiro, a Babáu Mataitá, no bairro da Pedreira. Em 1950, a musicóloga Oneyda Alvarenga organizou o material no livro Babassuê, com a descrição dos ritos, das danças e da planta do terreiro.
Satiro tinha então 43 anos, era nascido em Belém e tinha aprendido a religião com os pais e os avós — o pai de herança jeje, a mãe nagô. Na sua casa conviviam orixás, voduns, santos, caboclos e os mestres da linha de cura (leia Pajelança e Cura no Maranhão e na Amazônia). A orquestra tinha três tambores chamados abadam, cabaça, xequerê, agogô e ganzá. Os cânticos, chamados doutrinas, misturavam língua africana e português; as gravações estão guardadas no acervo da Missão, em São Paulo.
A ponte com o Maranhão
Em 1938 havia na casa de Satiro quatro pessoas vindas do Maranhão. A antropóloga Mundicarmo Ferretti mostra que muito do Babaçuê se explica pela presença da linha de Codó, a família de Légua Boji, no terreiro de Belém. Não por acaso, o Terecô de Codó também é chamado de brinquedo de Santa Bárbara (leia Terecô, o tambor da mata de Codó e Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão). A memória do povo de santo de Belém lembra Mãe Doca, maranhense, como quem trouxe a Mina Nagô para a Pedreira.
Perseguição e resistência
No Estado Novo, a polícia fazia diligências nos terreiros de Belém. Em 1930, Pedro, irmão de Satiro, que também dirigia uma casa na Pedreira, foi autuado por «exercício ilegal de medicina» e teve o tambor e os maracás apreendidos. Em 1938, o músico Gentil Puget e outros intelectuais entregaram ao interventor um memorial pela liberdade de culto, e o escritor Bruno de Menezes criticou a repressão na imprensa.
O sociólogo Roger Bastide chegou a tratar o Babaçuê como uma forma «deturpada» dos terreiros de São Luís — leitura que Ferretti critica. Em 1964, em meio a ameaças policiais, os terreiros de Belém fundaram uma federação que, um ano depois, já reunia 192 casas.
O Babaçuê hoje
O nome Babaçuê caiu em desuso, mas o culto não acabou: segue vivo na Mina Nagô e no Batuque de Belém, que os antropólogos Seth e Ruth Leacock estudaram em Spirits of the Deep (1972). Na Pedreira, o Terreiro de Mina Nagô Santa Bárbara, fundado por um iniciado da geração de Satiro, está hoje na terceira geração. O fundamento de cada casa é passado pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Terecô, o tambor da mata de Codó
- Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão
- Encantaria: quem são os encantados
- Pajelança e Cura no Maranhão e na Amazônia
Fontes
- Juliana dos Santos Carvalho — As memórias do Babassuê e do Batuque de Santa Bárbara nos terreiros da Pedreira em Belém do Pará, dissertação (UFPA), 2024
- Mundicarmo Ferretti — Encantaria de Barba Soeira: Codó, capital da magia negra? (2000)
- Oneyda Alvarenga — Babassuê (São Paulo, 1950)
- Seth e Ruth Leacock — Spirits of the Deep (1972)






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