A palavra pajelança é usada para duas tradições diferentes, e a antropóloga Mundicarmo Ferretti insiste em não confundi-las: a Cura do Maranhão, também chamada pajelança de negro, e a pajelança cabocla da Amazônia. As duas falam de encantados e de cura, mas têm histórias próprias.
A Cura do Maranhão
A Cura existe no Maranhão desde o século XIX. As pessoas procuram o pajé, ou curador, para desmanchar feitiços e tratar doenças. Segundo Ferretti, ela está mais perto do Tambor de Mina, de matriz africana, do que da pajelança indígena (leia Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão). A Mina é chamada de «linha de água salgada»; a Cura, de «linha de água doce».
O ritual público é o Brinquedo de Cura: o pajé entra em transe com muitas entidades, cantando em português, enquanto a plateia bate palmas. Ele usa um penacho, em geral de penas de arara, e o maracá — por isso a Cura também é chamada de «pena e maracá». Nem toda casa faz Cura: a Casa das Minas e a Casa de Nagô, as mais antigas de São Luís, não fazem.
As entidades são os encantados: nobres, caboclos, velhos, crianças, sereias e seres em forma de cobras, aves e peixes, que não morreram, mas se encantaram (leia Encantaria: quem são os encantados).
Perseguida por lei
A Cura foi duramente perseguida. Uma postura municipal de Codó de 1848 multava quem se propusesse a «curar feitiços» (leia Terecô, o tambor da mata de Codó). Em 1876, Amélia Rosa, chamada de «rainha da pajelança», foi processada e condenada a dez anos de prisão. Ainda em 1938 a pajelança era proibida — o mesmo ano em que a Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade gravou os terreiros de São Luís.
A pajelança cabocla da Amazônia
Na Amazônia, o antropólogo Raymundo Heraldo Maués estudou a pajelança cabocla, que tem raízes em antigas práticas dos índios tupinambás, com influências portuguesas e africanas, e convive com o catolicismo popular. Os próprios curadores se dizem bons católicos e preferem esse nome a «pajé», palavra que na região soa pejorativa.
Lá, os encantados vivem no «encante», no fundo dos rios e lagos. Quando se manifestam no curador, são chamados de caruanas, os guias. Nas sessões, o curador reza, canta, dança com o maracá e as penas e fuma o cigarro de tauari. Maués pesquisou durante anos em Itapuá, no município de Vigia, no Pará, e contou essa experiência no livro A ilha encantada.
A perseguição também chegou à Amazônia: começou com a visita da Inquisição ao Pará, no século XVIII, e continuou com bispos e policiais que acusavam os curadores de curandeirismo.
Quando as duas se encontram
A Mina e seus encantados chegaram ao Pará vindos do Maranhão — Mãe Doca, de Codó, é lembrada como quem os levou para lá — e se misturaram à pajelança cabocla. O fundamento de cada tradição é ensinado por quem a pratica.
Leia também
- Encantaria: quem são os encantados
- Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão
- Terecô, o tambor da mata de Codó
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Mundicarmo Ferretti — «Brinquedo de Cura em terreiro de Mina», Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 59, 2014
- Raymundo Heraldo Maués — «Um aspecto da diversidade cultural do caboclo amazônico: a religião», Estudos Avançados, 2005
- Raymundo Heraldo Maués — A ilha encantada: medicina e xamanismo numa comunidade de pescadores (UFPA, 1990)






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