No interior do Maranhão, na cidade de Codó, nasceu uma religião de tambor, encantados e muita música em português: o Terecô. Também chamado de tambor da mata ou brincadeira de Santa Bárbara, ele é hoje uma das tradições afro-brasileiras mais fortes do Maranhão.
Uma religião de raiz banto
A antropóloga Mundicarmo Ferretti, a maior estudiosa do tema, sugere que o Terecô tem origem banto, com elementos jeje e nagô (leia Dicionário banto). Comparado ao Tambor de Mina de São Luís, o Terecô tem mais entidades com nomes brasileiros e mais cânticos em português — algo que o pesquisador Octávio da Costa Eduardo já notava nos anos 1940.
O tambor da mata
O nome popular vem do instrumento: o tambor da mata, de uma só pele, que em Codó é tocado com maracás e com o ferro. Até pouco tempo, também se usavam pífaros e berimbau, que lá se chamava marimba. O tambor da mata acabou entrando nos terreiros de Mina de São Luís: os pesquisadores da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade gravaram em 1938 a casa de Maximiana, onde ele já era tocado.
Légua Boji Buá e a família da mata
O Terecô é a casa dos encantados da linha da mata de Codó (leia Encantaria: quem são os encantados). À frente dela está Légua Boji Buá, cujo nome completo leva «da Trindade». Sua família de encantados é enorme — segundo pessoas dos terreiros, tem mais de quinhentos membros. Como Légua é classificado muda de casa para casa: para uns é vodum cambinda, para outros caboclo, para alguns um príncipe guerreiro.
No Terecô e na Mina tradicionais não se cultua Exu. Existem, porém, terreiros «cruzados» com a linha de Quimbanda, onde Exu é recebido (leia Quimbanda: o que é, de verdade). Um dos sacerdotes mais conhecidos dessa linha foi Bita do Barão, de Codó, que faleceu em 2019.
Codó, entre a fé e o preconceito
Codó tem hoje mais de 250 tendas e quartos de santo. A perseguição é antiga: uma postura municipal de 1848 já multava quem se propusesse a «curar feitiços». No século XX, reportagens deram à cidade a fama de «capital da magia negra» — fama que Ferretti estudou e criticou no livro Encantaria de Barba Soeira. Os terreiros ainda enfrentam intolerância e racismo.
Do Terecô para outros terreiros
A linha de Codó se espalhou: entrou na Mina de São Luís, onde muitos terreiros «de mata» ou «de caboclo» misturam as duas tradições (leia Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão), e deu origem ao Babaçuê de Belém. Hoje o Terecô convive com a Umbanda, que chegou a Codó nos anos 1930, e com o Candomblé. O próprio nome «brincadeira de Santa Bárbara» mostra a ligação com o catolicismo popular: em Codó, a santa se associa a Barba Soeira, que dá nome ao livro de Ferretti. O fundamento de cada casa é passado pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Encantaria: quem são os encantados
- Tambor de Mina, a religião dos voduns e encantados do Maranhão
- Pajelança e Cura no Maranhão e na Amazônia
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Mundicarmo Ferretti — «Tambor-de-Mina em São Luís: dos registros da Missão de Pesquisas Folclóricas aos nossos dias», Revista Pós Ciências Sociais (UFMA), 2006
- Mundicarmo Ferretti — Encantaria de Barba Soeira: Codó, capital da magia negra? (Siciliano, 2001)
- Martina Ahlert, Lima e Zalis — «Léguas’ dwelling, land of enchantment», Anuário Antropológico, 2024






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