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Xangô do Nordeste: o culto nagô de Pernambuco e o Sítio de Pai Adão

Orixá paramentado de azul e verde dançando entre filhas de santo de branco

Em Pernambuco e Alagoas, as religiões dos orixás ganharam um nome próprio: Xangô. Quem consagrou o termo foram pesquisadores como Gonçalves Fernandes, autor de Xangôs do Nordeste (1937), René Ribeiro e Roger Bastide, que passaram a chamar assim os cultos de raiz iorubá da região — a mesma palavra que dá nome ao orixá do trovão (leia Xangô, o orixá da justiça e do trovão). O Xangô do Recife também é conhecido como nagô.

Tia Inês e o Sítio de Pai Adão

A casa mais antiga desse culto é o Ilê Obá Ogunté, o Sítio de Pai Adão, no bairro de Água Fria, no Recife. Segundo a história da própria casa, ele foi fundado em 1875 por Ifátinuké, africana de origem iorubá, que no Brasil foi chamada de Inês Joaquina da Costa, a Tia Inês. A nação é a nagô egbá, e a casa é consagrada a Iemanjá Ogunté, o orixá de cabeça da fundadora (leia Iemanjá, a orixá mãe das águas).

Retrato antigo de Pai Adão, Felipe Sabino da Costa
Pai Adão (Felipe Sabino da Costa), que faleceu em 1936. Retrato antigo restaurado.

Quem deu nome ao sítio foi Felipe Sabino da Costa, o Pai Adão, filho de santo de Tia Inês e o maior difusor do culto nagô no Recife. Quando ele faleceu, em 1936, o sociólogo Gilberto Freyre escreveu no Diario de Pernambuco que nem padre, nem pastor, nem político tinham merecido tanto respeito da cidade.

A casa continua nas mãos da família. Depois da morte de Malaquias, em 1978, assumiu o babalorixá Manoel Papai, neto de Pai Adão. No Sítio, as cantigas são entoadas só em iorubá (veja o Dicionário iorubá do candomblé), e o dia de Pai Adão, 24 de agosto, é uma das datas mais importantes do calendário. Em 2025, a casa completou 150 anos.

Patrimônio de Pernambuco e do Brasil

O Sítio de Pai Adão foi tombado pelo governo de Pernambuco, pela Fundarpe, em 1985. Em 20 de setembro de 2018, o Conselho Consultivo do IPHAN aprovou por unanimidade o reconhecimento do terreiro como patrimônio cultural do Brasil, na mesma reunião que tratou do Tumba Junsara, da Bahia — o mesmo caminho aberto pela Casa Branca do Engenho Velho.

A Quebra de Xangô de 1912

A história do Xangô também é uma história de resistência. Na noite de 1º para 2 de fevereiro de 1912, em Maceió, uma milícia ligada à oposição política, a Liga dos Republicanos Combatentes, invadiu e destruiu os principais terreiros da cidade. Os jornais acusavam o governador Euclides Malta de ser protegido dos terreiros, e a violência caiu sobre o povo de axé. A iyalorixá Tia Marcelina morreu golpeada por um sabre.

Os objetos saqueados foram parar no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde formam a Coleção Perseverança. Depois da Quebra, quem continuou praticando em Alagoas passou a fazer o culto em silêncio, sem tambor — o «xangô rezado baixo», que dá nome ao livro do antropólogo Ulisses Neves Rafael. Muitos sacerdotes deixaram o estado, como Artur Rosendo, que levou a Nação Xambá para o Recife (leia Nação Xambá, o quilombo urbano de Olinda). No centenário da Quebra, em 2012, o governo de Alagoas pediu desculpas oficialmente ao povo de terreiro.

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