«Axé!» Quem frequenta um terreiro ouve a palavra o tempo todo: como saudação, como «amém», como bênção, como nome de casa e até como nome de um povo — o povo de axé. Fora dos terreiros, ela virou sinônimo de boa sorte e até deu nome a um ritmo musical baiano. Mas o que é, afinal, o axé?
A força que faz tudo existir
Àṣẹ, em iorubá, é a força vital: a energia que faz as coisas existirem, crescerem e acontecerem. É também poder de realização — a palavra que, dita com axé, se cumpre. Para a tradição dos orixás, tudo o que existe tem axé: as pessoas, os animais, as folhas, as pedras, a água, os rios. Os orixás são, cada um, uma forma particular dessa força na natureza: o axé do trovão, o do ferro, o das águas doces.
A antropóloga e iniciada Juana Elbein dos Santos, no clássico Os Nagô e a Morte, mostrou que o axé não é uma coisa parada: ele se transmite, se acumula e pode se enfraquecer. Por isso precisa ser cuidado e renovado. Ela descreve como o axé circula pelos elementos sagrados — o que ela chamou de «sangue» vermelho, branco e preto, presentes em minerais, vegetais e animais — e é passado de pessoa para pessoa e de geração para geração.
O axé da casa
Um terreiro é, antes de tudo, um lugar onde o axé foi plantado. Por isso tantas casas têm a palavra no nome: Ilê Axé Opô Afonjá, Ilê Axé Iyá Nassô Oká, Ilê Axé Oxumarê. Quando uma casa é fundada, o axé é «plantado» nela; quando alguém é iniciado, recebe o axé daquela casa e passa a fazer parte da sua linhagem. A cada festa, oferenda e obrigação, esse axé é alimentado. O modo como isso é feito é fundamento de cada casa, ensinado lá dentro pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Também por isso o candomblé dá tanto valor aos mais velhos: quem tem mais tempo de iniciação acumulou mais axé e mais conhecimento, e a hierarquia do terreiro respeita essa antiguidade.
Axé no dia a dia
- «Axé!» — resposta a uma reza, a um desejo ou a uma bênção, como «assim seja»;
- «Muito axé para você» — votos de força, saúde e bons caminhos;
- «Povo de axé» — quem pertence às religiões de matriz africana;
- «Casa de axé» — o terreiro;
- «Perder o axé» — enfraquecer, ficar sem força — por isso se fala em renovar o axé.
Na Umbanda, a palavra também é usada com o mesmo sentido de força espiritual e bênção. E, desde os anos 1980, «axé» deu nome à axé music da Bahia — uma homenagem, ainda que indireta, aos terreiros que estão na raiz da cultura baiana.
Cante e sinta o axé
O xirê, a roda dos orixás, é um dos momentos em que o axé da casa circula entre todos. A cantiga de Oxalá, que encerra o xirê, é a mais vista do canal:
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Fontes
- Juana Elbein dos Santos — Os Nagô e a Morte: Pàde, Àsèsè e o culto Ègun na Bahia (Vozes, 1976)
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)






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