Em listas de orixás feitas no Brasil aparece um «Babá Oke», o orixá das montanhas. Mas, nas fontes iorubás, Òkè não é um orixá só. Òkè quer dizer morro, e o que se cultua é o espírito que mora em cada morro, protetor da cidade ao pé dele. Cada um tem nome, sacerdote e festa próprios. E o mais famoso, o de Ibadan, não é um pai: é uma mãe.
Um orixá para cada morro
Os pesquisadores Adeniyi e Oluwakemi Aboyeji, da Universidade de Ilorin, contam que a «festa de Òkè» é uma das festas anuais de quase todas as cidades igbomina que têm um morro importante. Os morros eram refúgio na guerra e, dizem eles, «davam proteção e traziam fertilidade». Em Iwo, o sacerdote do morro Awóji sobe vestido de branco, e as mulheres sem filhos levam galinhas e cabras. Também têm culto a rocha Olúmọ, em Abeokutá, e a Olósùntà, em Ikere-Ekiti.
Ibadan, fundada por Ifá
O teólogo nigeriano Bolaji Idowu, da Universidade de Ibadan, registrou a tradição da fundação da cidade. Antes de ocupar a terra, o caçador Lagelu e sua gente pediram a Orunmilá a confirmação de que ali cresceriam e se multiplicariam. Seis babalaôs consultaram Ifá, e saiu o odu Ọ̀ṣẹ́ Méjì, que virou o odu guardião de Ibadan. A oferenda foi de duzentos caramujos, soltos para andar o mais longe que pudessem: a cidade seria do tamanho do caminho deles. Até hoje o caramujo está no brasão de Ibadan. Sobre o oráculo, leia Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus.
Quando o povo perguntou como prosperar e ter filhos, Ifá respondeu que o espírito do morro seria o gênio protetor da cidade, e que era preciso fazer aliança com ele por meio de oferendas. Esse espírito passou a se chamar Òkè Ìbàdàn.

Uma deusa, mãe de muitos filhos
«A tradição insiste em que Òkè Ìbàdàn é uma deusa», escreve Idowu. O nome de louvor dela é Ọlọ́mú-orù, «a mãe de seios imensos», por causa da sua fecundidade: são muitos os seus filhos. É orixá da fertilidade. Lagelu, o fundador, virou sacerdote dela, e com o tempo a deusa e o ancestral passaram a ser lembrados juntos.
O Abókè, sacerdote que se veste de mulher
O sacerdote de Òkè Ìbàdàn tem o título de Abókè. Em 2014, os pesquisadores Oludele Solaja e Adesina Olayiwola entrevistaram o próprio Abókè e sua família, que se dizem descendentes de Lagelu. No dia da festa ele usa pano amarrado, gèlè e cabelo trançado, e anda descalço, porque o espírito do morro é uma mulher.
A festa de março
A festa abre a estação de plantio, em março. Para a historiadora iorubá Bọ́lánlé Awe, era o principal festival religioso da cidade e lembrava os primeiros moradores, que no alto do morro só tinham o que achavam para comer. Por isso, de manhã se toma mingau quente, como no tempo de Lagelu. Antigamente era feriado, e as cantigas da festa são famosas pela ousadia: os devotos explicam que guardam a memória de um tempo difícil.
E o Babá Oke do Brasil?
O «Oke» deus das montanhas vem de listas coloniais do século 19 e chegou a livros brasileiros. Nas cidades iorubás, o culto é local: cada morro é o orixá de um lugar. No candomblé, Òkè quase não tem culto próprio.
Leia também
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
- Orunmilá, o orixá do destino
- Oduduwa, a cabaça da criação
- Egbé Orun, a sociedade do céu
Fontes
- E. Bolaji Idowu (Universidade de Ibadan) — «Religion in Ibadan: Traditional Religion and Christianity», em P. C. Lloyd, A. L. Mabogunje e Bọ́lánlé Awe (orgs.), The City of Ibadan, Cambridge University Press, 1967, pp. 235–237 (no mesmo livro, o capítulo de Bọ́lánlé Awe, p. 18)
- Oludele Mayowa Solaja e Adesina Abass Olayiwola (Olabisi Onabanjo University) — «Oke-Ibadan festival and the ethnography of Aboke people of Ibadan», Yoruba Studies Review, v. 5, n. 1.2, 2020
- Adeniyi Justus Aboyeji e Oluwakemi Sola Aboyeji (University of Ilorin) — «Veneration of mountain-spirits in Yoruba traditional religion: the Igbomina example», em Ori-Oke Spirituality and Social Change in Africa, Langaa, 2018, pp. 549–570






Deixe um comentário