Orunmilá (em iorubá, Òrúnmìlà) é o orixá da sabedoria, do oráculo e do destino. É a ele que se dirige o sistema de Ifá, com seus babalaôs e seus 256 odus, que o Portal já explicou em Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus. Aqui a conversa é sobre o próprio orixá: quem ele é nas histórias iorubás, por que nunca incorpora e por que Exu é seu melhor amigo.
O sábio que estava lá no começo
Segundo a tradição oral resumida pelo pesquisador Sebastião Fernando da Silva, quando Olodumarê mandou Obatalá preparar a terra, encarregou Orunmilá de acompanhá-lo e orientá-lo. Em algumas versões, Obatalá, Orunmilá e Exu são as grandes divindades que desceram do céu por uma corrente de ferro e fundaram Ilê-Ifé. Para as outras versões da criação, leia Oxalá, o orixá da criação e Oduduwa, a cabaça da criação.
Os nomes de Orunmilá
Os títulos dizem muito sobre o papel dele. Gbáyé-gbórun quer dizer «aquele que vive e vê tanto o céu quanto a terra». Ebìkéjì Èdùmarè, «o segundo depois de Olodumarê». E Elérìí Ìpín, «testemunha do destino». O próprio nome é lido como «só quem mora no céu sabe quem será salvo».

A testemunha da escolha do destino
Na tradição de Ifá, antes de nascer cada pessoa escolhe o seu ori, a cabeça que carrega o seu destino, e Orunmilá está presente nessa escolha. Sobre o ori, leia Ori: a cabeça como orixá pessoal, o destino e o bori. Por isso é pelo oráculo que se procura saber qual é o orixá de alguém, o que tirou a vida do equilíbrio e qual oferenda é necessária: a função de Ifá é manter o equilíbrio entre o Orum, o mundo espiritual, e o Aiê, o mundo dos vivos.
O orixá que ninguém incorpora
Há uma diferença importante entre Orunmilá e a maioria dos orixás cultuados no candomblé. Ele nunca toma seus sacerdotes em transe. O babalaô não incorpora Orunmilá: ele estuda, decora os versos e interpreta os sinais do oráculo. A sabedoria, aqui, é aprendida.
Exu, o amigo predileto
Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, e analisados pela pesquisadora Sônia Regina Lages, Orunmilá e Exu andam sempre juntos. Exu é o mensageiro que leva os recados entre Orunmilá e os seres humanos. Numa história, é graças à esperteza de Exu que Orunmilá passa nas provas e fica com o cargo de adivinho. Em outra, Exu o coloca em apuros, fazendo-o passar por ladrão de obis numa fazenda, e depois o livra da acusação.
Os dois são opostos: Orunmilá é calmo, Exu é quente como o fogo; um aplaina os caminhos, o outro arma emboscadas. Um verso citado por Lages resume a dupla: «o caráter de Orunmilá era o destino, o de Exu, o acidente». Há até um mito em que Exu é filho de Orunmilá. Para conhecer Exu, leia Exu, o orixá mensageiro.
Por que o Brasil trocou o Ifá pelos búzios
Reginaldo Prandi explica que, no Brasil, os babalaôs foram rareando até quase desaparecer, e a consulta passou aos sacerdotes e sacerdotisas de santo, com o jogo de búzios. Nessa mudança, Orunmilá foi sendo esquecido e Exu passou a ocupar o papel central no jogo. Hoje, quem quer saber o seu orixá costuma procurar o jogo de búzios (Como saber qual é o meu orixá de cabeça).
Os nomes, as histórias e a forma de cultuar Orunmilá variam entre a tradição de Ifá e as casas de candomblé, e cada terreiro guarda o seu fundamento, ensinado pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Assista
Assista ao vídeo sobre Ifá no canal do Portal Afroxé:
Leia também
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
- Exu, o orixá mensageiro
- Ori: a cabeça como orixá pessoal, o destino e o bori
- Oxalá, o orixá da criação
- Oduduwa, a cabaça da criação
Fontes
- Sebastião Fernando da Silva — A filosofia de Òrúnmìlà-Ifá e a formação do bom caráter, dissertação de mestrado em Ciências da Religião, PUC Goiás, 2015, pp. 25, 60–65 e 75–76
- Sônia Regina Corrêa Lages — «Exu: o mal que se torna bem», Sacrilegens (UFJF), v. 1, n. 1, 2004, pp. 67–81, sobre os mitos reunidos por Reginaldo Prandi em Mitologia dos orixás (2001)






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