Ayrá (também escrito Airá) é o orixá do fogo que se veste de branco. Ele anda perto de Xangô, o rei do trovão, e perto de Oxalá, o pai da criação. Quem é Xangô está em Xangô, o orixá da justiça e do trovão; quem é Oxalá, em Oxalá, o orixá da criação. Aqui a conversa é sobre Ayrá e as histórias que o ligam aos dois.
Xangô branco ou orixá próprio?
Os pesquisadores Reginaldo Prandi e Armando Vallado registram as duas leituras. Em alguns terreiros, Ayrá é um grupo de qualidades de Xangô; em outros, um orixá diferente, que participa dos mitos de Xangô. O mais comum, escrevem eles, é considerá-lo um Xangô branco. Pai Pércio de Xangô, babalorixá do Ilê Alaketu Axé Airá, resumiu assim para os autores: «É tudo Xangô».
Intilé e o colar vermelho e branco
Na história de Airá Intilé, ele é o filho rebelde de Obatalá. Um dia, Obatalá e Odudua levaram o cavalo branco de Intilé. Ele saiu atrás dos dois para brigar, mas Obatalá exigiu que se curvasse e pedisse a bênção. Foi a primeira vez que Intilé se submeteu a alguém. Obatalá desfez os colares vermelhos de Intilé e misturou as contas com as brancas dos seus. Daquele dia em diante, todos saberiam que ele era seu filho. Para fechar o mito, Intilé levou Obatalá de volta ao palácio pelo rio, carregando-o nas costas.
Ibonã, o pai do fogo

Airá Ibonã é considerado o pai do fogo. Conta o mito que ele foi criado por Dadá, que lhe fazia todas as vontades, e que um dia ela o encontrou brincando com as brasas do fogão sem se queimar. Por isso, em junho, muitos terreiros fazem a fogueira de Airá: Ibonã dança com Iansã (Iansã, a orixá dos ventos) pisando as brasas.
Osi, o companheiro de Oxaguiã
Airá Osi admirava tanto Oxaguiã que trocou a roupa vermelha pela branca dos soldados dele e entrou no exército sem ser chamado. Na primeira batalha, teve medo e se escondeu atrás de uma pedra. Oxaguiã o achou ali, chorando, e o perdoou, mas com uma condição: Osi nunca mais vestiria o vermelho e seguiria com ele em suas guerras. A história de Oxaguiã está em Oxaguiã: quem é o Oxalá jovem e guerreiro.
A viagem de Oxalá
Outra história, contada pela filósofa Djamila Ribeiro na Folha de S.Paulo, liga Ayrá às Águas de Oxalá. Depois de sete anos preso injustamente no reino de Xangô, Oxalá voltou para casa escoltado por Ayrá, o chefe da guarda. De dia, Ayrá o carregava nas costas; à noite, acendia a fogueira e contava histórias. Nessas conversas, Ayrá desabafou o quanto culpava Xangô pela prisão. Oxalá viu que os dois eram como água e azeite e decidiu: Ayrá passaria a viver com ele.
Os nomes, as cores e as histórias de Ayrá variam de casa para casa, e cada terreiro guarda o seu fundamento, ensinado pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
A cantiga de Ayrá
Assista à cantiga «Aira ó lê lê» no canal do Portal Afroxé:
Leia também
- Xangô, o orixá da justiça e do trovão
- Oxalá, o orixá da criação
- Oxaguiã: quem é o Oxalá jovem e guerreiro
- Iansã, a orixá dos ventos
Fontes
- Reginaldo Prandi e Armando Vallado — «Xangô, rei de Oió» (texto no site de Reginaldo Prandi, USP, pp. 14–17)
- Djamila Ribeiro — «Ayrá, orixá autônomo, mistura a paz e o caos», Folha de S.Paulo, série Orixás (nov. 2024)
Foto da fogueira: Alberto Garcia — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0.






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