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Orixás na música brasileira: de Dorival Caymmi a Clara Nunes

Muitos discos de vinil antigos espalhados

Muita gente ouviu falar de Iemanjá, Xangô ou Oxum pela primeira vez num disco. Não é acaso. Pesquisadores mostram que a música popular foi uma das grandes portas de entrada das religiões afro-brasileiras na casa dos brasileiros. Abaixo, a história contada por quem estudou o assunto. Aqui não reproduzimos letras: só nomes de canções, discos e datas.

O samba nasceu perto do terreiro

A antropóloga Rachel Rua Baptista Bakke lembra que estudiosos do samba carioca, como Muniz Sodré e Roberto Moura, mostraram a ligação entre o samba urbano e os terreiros. As casas das «tias baianas», como a de Tia Ciata, no começo do século XX, eram ao mesmo tempo moradia, lugar de culto e de festa.

Dorival Caymmi e o mar de Iemanjá

Dorival Caymmi nasceu em Salvador, em 1914, e se mudou para o Rio em 1938. Faleceu no Rio em 2008, segundo o Dicionário Cravo Albin. Suas canções praieiras falam de pescadores, do mar e da Bahia. Em 1939 ele gravou «Rainha do mar» e «Promessa de pescador». Em 1948 vieram «A lenda do Abaeté» e «Saudades de Itapuã».

O pesquisador André Domingues, citado por André Haudenschild, vê nessas canções um retrato quase documental, com mitos locais como a pedra de Iemanjá em Itapuã. Em 1972, no LP Caymmi, ele gravou «Oração de Mãe Menininha», homenagem aos 50 anos da ialorixá do Gantois à frente da casa.

1966: os Afro-sambas

Em janeiro de 1966, Baden Powell e Vinicius de Moraes entraram no estúdio da pequena gravadora Forma. Com eles estavam o Quarteto em Cy e o maestro Guerra-Peixe. O LP Os afro-sambas de Baden e Vinicius saiu meses depois. As faixas trazem nomes como «Canto de Ossanha», «Canto de Xangô», «Canto de Iemanjá» e «Lamento de Exu».

De onde veio a ideia? Aqui as versões se somam. A pesquisadora Isabela Martins de Morais e Silva conta que Vinicius ganhou de Carlos Coqueijo um disco de sambas de roda e candomblés da Bahia, e que Baden se encantou com o que ouviu. O Dicionário Cravo Albin acrescenta que Baden passou seis meses na Bahia, onde conheceu os cantos de terreiro. A mesma pesquisadora vê no mar desse disco um diálogo direto com o mar de Caymmi.

Clara Nunes, a «Guerreira»

Clara Nunes é o nome mais lembrado quando se fala de orixás no samba. Até o nascimento tem duas versões: Bakke registra 1943, em Paraopeba (MG). O Cravo Albin dá 12 de agosto de 1942, em Caetanópolis (MG). Ela faleceu em 2 de abril de 1983, no Rio, após complicações de uma cirurgia.

Segundo Bakke, Clara nasceu católica, conheceu o espiritismo e, no Rio, a umbanda. Numa entrevista de 1981, disse ter se encontrado na umbanda depois de uma viagem à África. Reportagens a apontaram como filha de santo de Pai Edu, babalorixá em Olinda. Ela mesma dizia que Oxalá era seu «pai de cabeça», sem deixar de crer em Cristo. Também recusava o rótulo de «cantora de macumba».

O disco Claridade (1975), o mais vendido de sua carreira, trazia «A deusa dos orixás», de Toninho e Romildo. Depois vieram Canto das Três Raças (1976), Guerreira (1978) e Nação (1982). Bakke conta que muita gente conheceu tabus e ritos da religião pelas entrevistas da cantora.

Bethânia, Gil e a geração dos anos 1970

Segundo a tese de Isley Borges da Silva Júnior, Maria Bethânia foi apresentada à ialorixá Mãe Menininha do Gantois por Vinicius de Moraes e foi iniciada para Iansã, no Gantois. O disco Maria Bethânia Ao Vivo (1970) abre com um ponto de Iansã.

Gilberto Gil foi ao Festival de Arte e Cultura Negra (Festac), em Lagos, na Nigéria. Na volta, lançou Refavela (1977). O pesquisador Christian Ribeiro destaca ali «Babá Alapalá», que fala de Xangô, Aganju e dos ancestrais. Ribeiro lembra ainda que Gil compôs «Filhos de Gandhi» em homenagem ao afoxé baiano.

Os antropólogos Vagner Gonçalves da Silva e Rita Amaral incluem Caetano Veloso, Martinho da Vila, Edu Lobo e outros entre os artistas que espalharam pelo país os nomes e as histórias dos orixás. Para eles, essas canções funcionaram como uma espécie de «pedagogia» da religião. Isabela Silva registra que o grupo baiano Os Tincoãs também é lembrado por quem ama esse repertório.

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

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