Terno branco, chapéu panamá, gravata vermelha. A imagem de Zé Pilintra é uma das mais conhecidas das religiões afro-brasileiras. Aparece em altares, em bares e até em adesivo de carro. Mas essa roupa elegante conta só uma parte da história.
Antes de ganhar as ruas do Rio de Janeiro, Seu Zé já era respeitado nas mesas da Jurema, no Nordeste. Lá, ele é mestre. No Rio, virou malandro. E, conforme a casa, pode aparecer ainda de outros jeitos.
Este texto segue essa trajetória com base em pesquisas publicadas. Onde os estudiosos discordam, a gente mostra a divergência.
Pilintra ou Pelintra?
As duas grafias circulam, e nenhuma está errada. O texto da CartaCapital citado mais abaixo escreve «Pilintra». Já os trabalhos acadêmicos citados aqui preferem «Pelintra».
A palavra existe no dicionário. O Priberam traz sentidos quase opostos. Pode ser a pessoa pobre que tenta parecer respeitável. E, no uso brasileiro, quem se veste com capricho. O próprio nome já carrega a ambiguidade do personagem.
Mestre na Jurema
A Jurema, também chamada Catimbó-Jurema, é uma tradição do Nordeste. Tem presença em Pernambuco, na Paraíba e no Ceará. Pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba a descrevem como religião afro-ameríndia, com traços da magia europeia. Nela, as entidades centrais são os mestres e as mestras.
Para esses autores, Zé Pelintra é um dos maiores nomes da Jurema, o maior na Paraíba. Eles o veem como ponte entre Jurema e Umbanda: «lá como malandro, aqui como Mestre».
Um sacerdote que escreve no blog Diálogos da Fé, da CartaCapital, afirma que a origem nordestina de Seu Zé já não se discute. Segundo esse texto, na Jurema a roupa é simples. Camisa branca ou xadrez, calça arregaçada, pés descalços e lenço vermelho.
Nem todo pesquisador, porém, procura uma origem única. A antropóloga Emília Mota, em revista da USP, diz preferir seguir os trânsitos da entidade. Para ela, não dá para retomar uma linha só.
Malandro no Rio de Janeiro
No Rio, Seu Zé ganhou a cara do malandro boêmio. É o tipo associado à Lapa e ao Estácio da primeira metade do século XX. O pesquisador Janderson Bax Carneiro, em dissertação na PUC-Rio, descreve a imagem mais difundida: homem negro, terno branco, chapéu panamá, gravata vermelha e sapatos de duas cores. Vendedores de artigos religiosos contaram a ele que os adesivos de Zé Pelintra são os mais vendidos.
Na Umbanda carioca, ele inspirou a linha dos malandros. O pesquisador Zeca Ligiéro dedicou um livro inteiro a essa lenda: Malandro divino, de 2004.
Muitas faces, conforme a casa
A pesquisa de Carneiro mostra que o terno não é regra. Num terreiro de Cabo Frio, o Zé que se manifestou tinha fala de sertanejo e andava com bengala. Não usava terno nem sambava.
O nome também pode indicar um grupo. Há quem diga ter «um zé pelintra», como se diz de outras entidades. Carneiro viu dois Zés com nomes diferentes numa mesma sessão. Em outra casa, ouviu que Zé Pelintra é o chefe de todos os malandros.
O lugar dele na Umbanda muda de casa para casa. O texto da CartaCapital o liga à linha das almas ou dos baianos. Um estudo da UNESP registra que ele também pode trabalhar como guardião, junto aos exus. Na Paraíba, um Zé Pelintra estudado se declara quimbandeiro, mas aconselha a não fazer mal a ninguém.
A pesquisadora Monique Augras, citada por Carneiro, resume a questão: «Mestre e Exu, ou Exu em figura de Mestre». Vale lembrar: Exu não é demônio. É quem abre os caminhos e guarda as portas.
Duas funções aparecem com frequência. Seu Zé é chamado de advogado do pobre e de médico do pobre.
Respeito a cada terreiro
Não existe uma versão única de Zé Pilintra. Cada casa tem seus fundamentos, e todos merecem respeito. Quem quiser conhecer Seu Zé de perto deve procurar um terreiro sério e conversar com o sacerdote ou a sacerdotisa responsável.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Umbanda: as linhas e as entidades — Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Exus e Pombagiras
- Quimbanda: o que é, de verdade, e por que não é «magia negra»
- Umbanda: Uma Religião Brasileira
Fontes
- Luís Felipe Cardoso Mont’mor e Rafael Trindade Heneine — Aspectos da Quimbanda no Catimbó-Jurema paraibano, Diversidade Religiosa (UFPB), v. 9, n. 1, 2019
- Emília G. Mota — Prelúdios da aprendizagem com Mestra Paulina: composições, multiplicidade e contramestiçagem, Ponto Urbe (USP), n. 27, 2020
- Janderson Bax Carneiro — «Vou subir o morro para ver quem vem na umbanda»: Zé Pelintra e as ressignificações do malandro na prática religiosa umbandista, dissertação PUC-Rio, 2012
- Carla Regina Santos Paes, Douglas Junio Fernandes Assumpção e Analaura Corradi — Resistência cultural africana religiosa nos pontos de Zé Pelintra, Patrimônio e Memória (UNESP), v. 19, n. 1, 2023
- Rodney (blog Diálogos da Fé) — Malandro, mestre e protetor: quem é Zé Pilintra, CartaCapital, 2018
- Dicionário Priberam — verbete «pelintra», Priberam
- Zeca Ligiéro — Malandro divino: a vida e a lenda de Zé Pelintra, personagem mítico da Lapa carioca, Nova Era, 2004
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