Num terreiro de candomblé, a idade que conta não é a do documento: é o tempo de santo. Uma senhora iniciada há pouco pode pedir a bênção a alguém bem mais jovem, que tem mais anos de iniciação. É assim que a casa se organiza.
As três esferas do terreiro
O pesquisador Patrício Carneiro Araújo descreve o segredo e o poder no candomblé em três esferas:
- os abiãs, que ainda não foram iniciados;
- os iaôs, os iniciados;
- os ebômis, os mais velhos, junto com os cargos de quem não entra em transe, as ekedes e os ogãs.
Abiã
Abiã é quem frequenta o terreiro e tem laço ritual com a casa, mas ainda não foi iniciado. Muitos já fizeram o bori, o rito de alimentar a cabeça (leia Ori, a cabeça como orixá pessoal). Sobre o sentido da palavra há duas leituras: «aquele que nasce eleito» ou «aquele que nasce com dúvida».
Iaô e as obrigações
Iaô, do iorubá ìyàwó, «esposa», é o iniciado. A iniciação pode exigir até 21 dias recolhido no terreiro e tem custo alto. Por isso existem os «barcos de iaô», que iniciam várias pessoas juntas.
Depois da iniciação vêm as obrigações de 1, 3 e 7 anos, que não podem ser adiantadas. Como custam caro, é comum serem feitas com atraso: há quem esteja iniciado há décadas e continue iaô. Algumas casas fazem ainda obrigações de 14 e de 21 anos; outras falam em 14 e 20.
Deká: o iaô vira ebômi
A obrigação de sete anos se chama deká. Nela, o iaô passa a ebômi, do iorubá ẹ̀gbọ́n, «irmão mais velho». Tradicionalmente, só depois da deká alguém pode assumir uma casa como ialorixá ou babalorixá e iniciar outras pessoas. O ebômi também ganha sinais visíveis, como fios de contas mais elaborados, entre eles o runjebe. Durante a iniciação, o iaô usou o quelê, uma gargantilha de miçangas na cor do orixá, símbolo da união entre os dois.
Os cargos da casa
- Ialorixá e babalorixá: a sacerdotisa e o sacerdote que dirigem a casa (no angola, mam’etu e tata);
- iyakekerê e babakekerê: a mãe pequena e o pai pequeno, auxiliares diretos;
- iabassê: cuida da cozinha ritual;
- ogãs: o axogum, que faz os sacrifícios, o alabê, que toca os atabaques, e o pejigã, que cuida do quarto dos assentamentos;
- ekedes: cuidam dos orixás em terra (leia Ekede, o cargo de quem cuida do orixá).
A cadeira e a sucessão
Reginaldo Prandi mostra que a cadeira é o grande símbolo de poder do terreiro: a da ialorixá ou do babalorixá vem primeiro, depois as dos que têm cargo. Até os orixás dos ebômis se sentam em cadeiras, e os dos mais novos, em banquinhos.
Quando a liderança falece, há um período de luto e consultas ao jogo de búzios. Diz-se que quem escolhe o novo chefe é o orixá dono da casa, mas pesam também o tempo de santo, a tradição e a família. No Gantois, o terreiro de Mãe Menininha, a casa sempre foi dirigida por descendentes da fundadora; no Ilê Axé Opô Afonjá, a sucessão nunca foi por linha de sangue. A Casa Branca do Engenho Velho foi o primeiro terreiro tombado pelo IPHAN, em 1984.
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Ekede, o cargo de quem cuida do orixá
- Ori, a cabeça como orixá pessoal
- Do calundu ao candomblé
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Patrício Carneiro Araújo — «Awo òrìsà: o segredo ritual como fonte do poder dos ègbónmi», Revista Nures (PUC-SP), n. 22, 2012
- Aymê Okasaki — «Os Axós do Axé Ilê Obá: trajes do candomblé paulista», Afros & Amazônicos (UNIR), 2024
- Reginaldo Prandi — «A cadeira no candomblé» (USP)
- Isadora Souza da Silva — Pelas mãos das Ekedis e Makotas: o poder matriarcal nos processos educacionais nos candomblés, tese (UERJ, 2023)
- Odete Dourado — «Antigas falas, novas aparências: o tombamento do Ilê Axé Iyá Nassô Oká», Risco (USP)
Foto da capa: Paul R. Burley — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.





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